CRÍTICA AO “DIREITO À LITERATURA” DE ANTONIO CANDIDO

por culturamarxista

Por Grazzi
AC

Quando Candido expõe o direito à cultura, apesar de citar a estrutura de classes da nossa sociedade, interpreta a questão como um fenômeno descolado da sociedade, algo quase abstrato. Candido centraliza seu texto na ideia dos “direitos”, semelhante aos “direitos humanos”, ideia também encabeçada por Napoleão, na própria revolução burguesa, na “Declaração dos direitos do homem e cidadão”. Os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade foram bandeira da então Revolução Francesa que apesar de ter contado com a participação de trabalhadores, foi tomada pela burguesia como sua libertação da classe nobre. Assim, tais direitos “universais” foram pensados para tal burguesia (homens e cidadãos) e não para os trabalhadores. Essa divisão de classe é tal qual existe hoje, e essa mesma cena dos direitos não mudou muito.
É importante alertar o cárater de certas investidas democráticas que elaboradas dentro do sistema capitalista, continuam a fazer a própria manutenção do sistema, normalmente com o objetivo de apaziguar a classe trabalhadora diante da opressão sofrida. Exemplo disso são políticas populistas como os direitos trabalhistas obtidos no governo de Vargas, apesar de melhorarem em certa medida as condições de trabalho, o objetivo foi apaziguar uma agitação política que ocorria e ironicamente, aumentar o controle dos patrões sobre seus funcionários, com instrumentos como a carteira de trabalho. Na mesma linha dessas “investidas democráticas”,há um espírito “solidário”, piedoso, de caridade, que o cristianismo (e outras religiões) pregam em complemento aos “criança esperança” da vida, que desempenha um papel menos ingênuo do que parece para o sistema capitalista: gera um “alívio de consciência” da classe burguesa em relação aos pobres através de campanhas de doação (de agasalho, brinquedo, dinheiro), porém mantendo a enorme desigualdade social.
Concordando que a ideia dos direitos democráticos na sociedade capitalista é uma grande ilusão (para os pobres e trabalhadores), e que Antonio defende a ideia de uma forma abstrata, usando uma linguagem específica, para pessoas específicas (comunidade uspiana, que em geral é bem elitizada) esse texto não dialoga com pobres e trabalhadores. Essa conclusão é muito curiosa porque exatamente Candido se propõe a falar sobre a investida na cultura para a população geral. Não pretendo julgar o professor nem seu caráter, porém trago essa crítica à sua ideia e a este texto (que inclusive é o único que li de sua autoria até agora) reinvindicando uma visão de consciência da luta de classes.
Candido fala sobre a acessibilidade de clássicos da literatura e discorre sobre a importância e destaque que é dado aos pobres no movimento romantista. Porém esse é exatamente o movimento artístico que formatou a identidade da classe burguesa que engatinhava no poder (romantismo é do século XIX, um pouco depois da Revolução Francesa) ! Por isso, trago minha desconfiança ao caráter desse discurso, que diz sobre a necessidade de o trabalhador ter acesso à literatura, dando-lhe referências de seus opressores. Não falo contra os clássicos da literatura romântica, nem duvido aqui sobre seu valor literário ou artístico, apenas estou indagando se é essa a referência de comunicação correta quando seu objetivo é o povo. Não discuido dos valores universais tratados em obras de literatura romântica, apenas duvido sobre a valorização da própria classe trabalhora como esse mesmo universal (vale lembrar que o homem e o cidadão que mereciam direitos universais nessa mesma época não eram os trabalhadores).
Esse questionamento encaminha para a longuíssima pergunta; “o que é literatura?”, “o que é cultura?”. Porém não vou ousar responder essas perguntas melhor do que uma penca de críticos e teóricos por aí, mas acredito que mais importante do que é cada uma dessas coisas é o processo que elas geram, é “como é a literatura?”, “como é a cultura?”;digo isso não apenas pelas discussões atuais sobre estéticas,novas mídias, novas formas de livros e de escrita da modernidade (televisão,blogs, pixações) mas principalmente sobre como essa cultura se manifesta. Por exemplo: nessa mesma época do romantismo, os livros eram lidos apenas pela burguesia, que se apropriava dos livros como uma forma de entretenimento, passatempo. Era quase um consumo de literatura (com a licença da coincidência da palavra e da situação). Porém nem toda literatura é assim; os livros podem servir para trasmitir uma consciência individual, coletiva, podem inspirar outras criações artísticas/literárias/culturais, como podem se encerrar em si.
Já que Candido escreve para a burguesia, é mesmo esquisito, pelo que eu entendo, tentar compreender o ritmo, a lógica, as experiências de vida, o conjunto cultural de uma classe social que vive completamente diferente; come diferente, anda diferente, beija diferente, estuda diferente, trabalha diferente. Portanto, discordo da tomada de consciência espontânea e misteriosa que Candido de certa forma defende, de certa forma crê. Candido tentou responder a “como tornar os clássicos populares”, eu, porém, acredito em tentar responder uma outra pergunta: como tornar a literatura popular? Acredito na literatura como uma ferramenta para transformações individuais e coletivas; e principalmente na sua contribuição para que avancem a consciência e a sociedade.

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