“Estou puta e pronto”

por culturamarxista

Segue abaixo texto desenvolvido em oficina de criação teatral por uma das integrantes do grupo de estudos:

POR MILA

 

Estou puta e pronto! Sinceramente não sei como isso aconteceu… Num primeiro momento fui controlada, até cheguei a pensar nos cálculos… Não sei como vim parar nessa situação, o que farei, ai meu Deus, piedade, piedade!… … … … … … … … … … … … … … …

A culpa não foi minha, meu marido, meu marido… morreu e eu, eu, fiquei só. Só. Merda! Também tem aquela birosca, me sufocava, me apertava, aquelas janelas estreitas, a luz escura, a portinha. Precisava de vida naquele lugar! Minha única companhia foi a Dona Constância que também não era na realidade minha amiga, sempre ficou ela me invejando: tivemos a mesma idade mas eu sou mais conservadona. Definitivamente ela nem me ajudou, o que seria a minha dívida pra aquela Senhora? Nem nos bifes ela tinha a decência de colocar o mesmo tamanho, e ficava olhando pra vê se repetia, a louça nunca lavou. Vim morar na edícula da loja, tudo bem que eu não pagava aluguel, mas eu num via ninguém, ficava conversando aqueles papos de carola que não tem mais nada pra fazer. Não houve outra situação.

 

Ao me deitar: aparecia meu marido saído do armário, eu ficava com medo de respirar fundo e não gostar do cheiro ruim que ele exalava, dele perceber… dele olhar. Um shuuuf e o aroma das velas apagadas, do caixão fechando meu marido, da terra… a terra que nunca se desencavava. Numa missa sem fim. Meus parentes mortos estavam todos do meu lado, me acolhiam, me abraçavam. E a Dona Constância vinha me buscar de carro pra me levar pra sua casa. Ela morava num tipo dessas casinhas do interior, de sítio, fogão à lenha, fazia um baldão, desses de cozinha industrial, cheio de coxas de frango fritas. Pedia a ela que eu estava com fome, ela me concedia uma. Sendo quê não fosse pra mim, ela voltava pro fogão e eu roubei uma da panela e engoli sem mastigar, no finalzinho ela veio aparecendo, me encurvei mastigando pra não perder o pedaço, voltei ao assunto. O marido dela estava batendo as cercas e construindo farpas nos arames. Protegia seus bichos, boi, vaca, cavalo.

 

Quando eu vi já estava ele lá azulzinho em minhas mãos, meu nome resplandecia, sem pensar fui às compras. Precisava renovar meu armário. Troquei calças por saias e vestidos. Tênis por sapatilhas. Com a economia do ônibus, pensei, poderia gastar com cosméticos. Dei uma valorizada. Tava precisando, ainda era jovem. No primeiro mês me dei conta que eu não precisava ter sido tão radical com as compras, podia comprar somente da estação que estávamos entrando. Deixar de lado o cartão, em cima do armário. Me achei consumista: meu armário estava cheio e eu não tinha nem lugar pra usar as roupas. Resolvi dar um tempo. Mas, logo no mês seguinte, chegou o carro de minas, a revendedora, a mulher dos vestidos. Cedi. Aos poucos fui me convencendo das necessidades de cada item que adquiria, os doces e os queijos me deram o prejuízo na balança. Fui atrás de algo que pudesse me emagrecer de forma rápida e sem afetar a minha saúde, comecei com uma corda e um bambolê. Um emagrecia, o outro afinaria a cintura. Colocava uma música animada no fone, animava. Comprei nas bancas de revistas algumas sobre boa forma, comprei produtos mais saudáveis, substitui açúcar por mel, chocolate por granola, muitas frutas. Arroz integral, salada e temperos. Peixe. No final de semana eu abria a brecha, não agüentava a falta de cerveja, a feijoada… Não tinha muito tempo de fazer os exercícios e meus joelhos já começavam a doer. Fui atrás de algo mais eficaz. Encontrei um aparelho de fazer abdominal, comecei a me sentir melhor, não emagrecia, mas era notável que havia uma redistribuição das gorduras. Conheci novas companhias no salão que passei a freqüentar, uns dos poucos que aceitavam a maquininha. Cabelo, retoque da tintura por mês, corte a cada 3, escova todo final de semana. Limpeza de pele só de 3 em 3 meses, manicure semanal, pedicure de 15 em 15, a cada dois meses podóloga pro trabalho pesado, depilação e massagens mensais. Uma vendedora de bijuterias banhadas em ouro e prata me ofereceu algumas promoções, garantiu que o anel não iria escurecer, sendo o caso passar pasta de dente resolveria, comprei um conjuntinho. Uma espécie de angústia e presságio invadiu os meus sentidos, passei muito mal, cheguei a ver uma fileira de mortos do passado e, realmente, ter consciência dentro de um corpo que está ruindo pelos vermes. Foi um encontro com aquilo que ninguém pode ter. Como eu sofri, gelei. Não queria mais trabalhar, não me concentrava. Escutava Dona Constância e me vinha uma vontade  de enforcá-la, cheguei a temer meus pensamentos, aos poucos fui me acalmando e me recuperando. Resolvi tomar alguns remédios homeopáticos pra ficar mais calma, eles eram um pouco caros, mas me ajudavam bastante, principalmente a dormir.

Nessa época os remédios não só acalmavam minha mente, comecei a ter uns sonhos mais fantásticos, mirabolantes. Lembrava as pessoas que se foram, mas que ficaram de alguma forma.

Estava almoçando com a minha mãe, ela não olhava pra mim, só ficava virada pro fogão e pra pia, os azulejos eram daqueles decorados, antigos, cor de rosa velho, ela pedia pra eu ir logo pegar o leite na padaria, sua voz era diferente da habitual, eu partia. Logo na estrada aparecia o Jean de bicicleta, me convidava pra sairmos dali, ficarmos mais a vontade, topei. Começamos a caminhar na luz que fica logo depois do sol se por: já sem sol, mas com a claridade cinza do fim do dia. Ao anoitecer eu estava vestida de noiva, ele, estampa xadrez, estávamos casando em meio de uma quadrilha de festa junina. Todos estavam felizes, mesmo as meninas que tinham que se fantasiar de homens por falta de par. Todos me respeitavam por saber da minha generosidade e respeito por todos, que eu não esbanjava ser noiva, pra mim tanto fazia na realidade. Dançávamos, o padre… o padre era o menino que eu dei o primeiro beijo. Todos nós, na hora do imenso caracol, nos olhávamos sorrindo, nem nos atrapalhávamos com os flashes das arquibancadas. Na hora do desmanche do caracol eu não estou mais lá. Estou só, ao lado da fogueira imensa, as pessoas gritam meu nome clamando que eu volte. Eu, sem pensar, tento construir um balão, desisto antes de queimá-lo, entrego os pedaços de jornais na mão de uma senhora que vendia bolo de milho. Entrei na fogueira, mas o medo e o calor me fizeram acordar.

Lembrei do Jean, era um menino que eu consegui namorar por dois meses, ele namorava só com as mais bonitas. Era coisa boba, nem nos beijávamos, só era o título mesmo, com a Carol ele namorou até a adolescência, eu gostava da Carol, ela era linda… sabe, toda sardentinha, morena, cabelo bem preto, sorriso claro, parecia uma índia.

 

No segundo mês resolvi ir até o banco pra cancelar o cartão de crédito. O maldito do caixa me convenceu a fazer um financiamento da dívida, pagá-la ao mês, que os juros eram menores, daí eu não perderia os benefícios da conta. Aceitei, pois, se de um lado eu não tinha condição de ter uma vida mais digna, mais feliz, por outro, eu tinha esse direito, optei por ele. Não fiquei no vermelho, acabei gastando só com supermercado. Paguei o primeiro mês do financiamento e tudo parecia se normalizar. No outro mês fiquei satisfeita com os conselhos do banco, comia bem que mal tem? Precisava de uma máquina de lavar roupa, porque eu gastava muito tempo no tanque, parcelei junto com um liquidificador pra eu bater as minhas vitaminas. Deu tudo certo, assim, no outro mês eu comprei uma televisão de plasma, gostava das novelas, dos filmes e assistia aos jornais, minha vida melhorou muito, mas era uma besteira eu ter uma puta de uma televisão e só assistir 3 canais. Fiz o plano com a T.V a cabo, com o básico, obviamente, aproveitei pra aceitar a internet e logo adquiri um computador. Comecei a conhecer muita gente e a paquerar nos chats, marquei alguns encontros, voltei pra atividade. Arranjei uma promoção na geladeira, fogão não fazia questão. Tudo ficou caro, mas parcelei tudo pra um ano. Mas… mas… mas… dessa vez a conta não veio sozinha, veio com o ultimato do banco.

Era pra eu comparecer até hoje às 3 da tarde. A angústia voltou e eu lembrei que já fazia um certo tempo em que não tomava meus remédios. Parei, comecei a chorar, eles cobravam 12% ao dia, nem sei o que isso significa, sei que era mais do que 50 reais. Eu nunca aprendi a mexer com dinheiro, sabe, meu pai sempre fazia isso, meu marido também, eu nunca me ative a essas questões, era melhor como administradora. Foi na loja que eu percebi a questão dos juros, mas com a Dona Constância é tudo certinho, só preciso somar e subtrair, ela é que vai lá tratar dos negócios. Não quero ir ao banco. Não vou. E se eles chamarem a polícia? Não… não fariam, não sou ladrona. Não roubei ninguém… eu tenho esse direito, eu tenho o direito de querer as coisas. Eu não vou ao banco. Mas eles podem aparecer aqui. A polícia, se vier a polícia eu serei presa. Ai Meu Deus, me perdoa por favor eu juro eu não fiz por mal. Tantos anos trabalhando, minha vida foi pro lixo, meu marido nunca soube me dar conselhos, tantos anos… lavando, passando. E o nosso filhinho, se ele estivesse vivo eu teria mais juizo. Não, não… por que?

 

Acontece que nesse dia o sol se pôs às 3 da tarde, as estrelas provaram todas suas constelações, a moça já exausta de pensar deita-se a frente da poltrona de cheiro de couro novo. Ao seu redor começa a despencar a cortina, depois a estante, a televisão cai mas não faz barulho, também desaparece. Por um momento volta a consciência e levanta, cada objeto que mirava, num passe de mágica sumia. Olhou para o sofá, o tapete, a mesa, o armário da cozinha, cada fio de macarrão desaparecia ao lado dos mantimentos, das frutas, da vagem, some a geladeira, o fogão, o aparelho de som. Ela titubeia coçando os olhos, em vão, tudo continua a desaparecer milagrosamente, some os espelhos, vai a bicicleta, abajur, cd´s, computador, cama. As roupas derretem feito cera de vela e são puxadas para o fundo da terra. Ela tenta gritar, mas acaba não saindo ruído. Não podendo continuar ela se joga tentando abraçar o chão. Tudo vai ficando silencioso, calmo, um vento começa a soprar levemente pela suas costas, ela aprecia um sensação de liberdade, se acalma, realmente se sente bem, abre os olhos e no lugar do piso há barro. Vira bruscamente e lá está ela, ao léu, numa estrutura de casa, sem nenhum tijolo, ao meio da noite escura e nada mais, sem loja, sem rua, sem nada. Era ela. A estrutura rompeu. Quando deu por si estava só com um monte de paus nas suas mãos. Estranhou a coragem que partia de si, gritou, mas gritou o berro dos berros.

 

Não! Não! Eu não vou pagar essa conta, é um roubo! Nada de negociar… vocês só querem tirar mais dinheiro de mim. Peguem todo aqueles lixos de volta, não vale nada. O que vocês tem com isso? O que vocês tem…? Não vou me acalmar!… podem chamar a polícia porque vocês que são os ladrões. Meu nome? Suja ué! Eu não vou gastar mais um centavo com esse banco maldito. Me recuso, me recuso. Caducar o caralho! Barraco? Vocês nunca viram um barraco! Estou por aqui com esta merda. Vocês não se importam com ninguém, só querem juros, juros e mais juros… Se eu não tenho dinheiro nem pra pagar aquelas porcarias, como eu pagaria os juros? Eu trabalho o dia inteiro, sou sozinha. Ninguém lava nada pra mim, entendeu, ninguém! Eu grito sim! Não tenho da onde tirar. Tirem a mão de mim! Solta, solta… Não interessa onde eu trabalho. Não vou me acalmar, ninguém vai me ajudar… não, não vou parar!

 

 

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