Sobre o lançamento de “Peões em cena” e o Grupo Forja

por culturamarxista

Sobre o lançamento de “Peões em cena” e o Grupo Forja

POR PARDAL

 

Maria Silvia, professora da Letras e coordenadora do Centro Angel Rama, não estava exagerando nem um pouco quando disse, mais de uma vez, que era um acontecimento de grande importância aquele do qual estávamos participando. Era o lançamento do livro “Peões em cena”, de Tin Urbinatti. E, contraditoriamente, haviam pouco mais de quinze pessoas na sala. Poucos alunos da graduação. Fora dali, as pessoas assistiam suas aulas, como de costume, sem se dar conta, como disse acertadamente uma das melhores professoras que tive na USP, que ali dentro daquela sala algo histórico acontecia.

Assistimos, os poucos que ali estavam, uma peça de cerca de uma hora de duração. Escrita por Tin e o grupo de operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo que constituiam junto com ele o Grupo Forja de Teatro, nascido nas entranhas de um dos mais agudos processos de luta de classes que o Brasil já passou. Não é à toa, como disse Tin no debate após a peça, que naquele momento, a partir de 1978, o país inteiro obervava o que acontecia no ABC atentamente. Greves que se enfrentavam com a ditadura e mostravam de maneira exemplar como a classe operária tem o potencial de hegemonizar os setores explorados e oprimidos para conseguir apontar uma saída para a nossa miséria coletiva; quando o país estava atento ao que diziam os metalúrgicos do ABC, é porque era este o setor que poderia colocar de pé uma estratégia de ruptura radical com a ditadura, avançando para construir um governo de trabalhadores em nosso país.

Era nítido que Tin, enfiado até o último fio de cabelo neste processo, compreende o que hoje foi extirpado conscientemente da visão histórica de quem não estava lá naquele momento fundamental; quando ele falava sobre as doações de alimentos que chegavam de todo o país e do exterior para o fundo de greve, do qual o Grupo Forja fez parte; quando falava dos artistas que iam às fábricas e assembleias prestar solidariedade ativa, que tinham suas obras profundamente influenciadas pelas mobilizações dos trabalhadores: ali estava claro o papel central que os operários tinham na vida política do país.

A própria existência do Grupo Forja é uma expressão aguda do que Lênin dizia: “A classe trabalhadora organizada é tudo; sem organização, não é nada.” Neste momento da nossa história, como em muitos outros que tenho aprendido com Maria Silvia nas minhas aulas, e com Iná Camargo em seus textos e palestras, se mostra como o que há de mais avançado na elaboração estética e artística não se dá por fora da realidade, pautado pela cabeça de um grande gênio criador que paira acima do restante dos mortais. A junção de Tin Urbinatti – estudante de ciências sociais da USP nos anos 1970 que colocava sua criação teatral no âmago da luta de classes já dentro da recém fundada Cidade Universitária – com um grupo de metalúrgicos que resolveu fazer teatro para falar de sua vida e de sua experiência política, é a nítida expressão de que os momentos em que a história permite que nossa organização social como um todo dê um passo à frente são também os momentos em que a arte pode dar um passo à frente. As experiências estéticas que o Grupo Forja fez, como ressaltou Tin, não eram fruto de elocubrações, mas da necessidade de seu teatro: foram ao teatro de rua para chegar aos trabalhadores; fizeram peças em que as falas não eram centrais e que usavam grandes adereços e bonecos para poderem encenar na Vila Euclides diante de platéias de dezenas de milhares de operários. Uma lição concreta de que forma e conteúdo não se dissociam. E não por coincidência, como resgatou a fala de um dos estudantes que assistiu a peça do Forja, há tantas semelhanças entre este e o teatro de Agitprop realizado na Rússia revolucionária.

Como Tin relatou, quando era estudante da USP as suas peças questionavam os desmandos da ditadura e da reitoria dentro da universidade. Foi assim quando encenaram uma peça proibida, que por este motivo já afugentava os espectadores receosos de qualquer atividade “subversiva”, nos escombros do atual prédio de Letras, cuja construção era protelada indefinidamente pela burocracia universitária. A iluminação precária feita por um “gato”, cujo fio clandestino trazia os espectadores desde o prédio da História e Geografia através de cercas e mato, para enfim chegarem ao prédio semi-abandonado onde era encenada a peça.

A partir daí, com os operários em cena e tentando resgatar seus sindicatos como ferramenta de luta das mãos da burocracia pelega da época, Tin tomou contato com o movimento operário e a serviço deste colocou sua criação artística. Sua primeira peça neste caminho foi uma que retratava o programa da chapa 3, da oposição metalúrgica de São Paulo, que enfrentava o célebre pelego Joaquinzão, capacho da ditadura, que se arvorava no sindicato. Foi apresentando esta peça em diversos lugares que veio o contato com os operários que viriam a constituir o Grupo Forja, que quiseram saber quem havia escrito a peça para a Chapa 3 e se juntar a ele.

A peça que assistimos no lançamento do livro, remontada por um grupo de atores recém-constituído junto a Tin, chama-se “Pesadelo”. Ela é uma criação coletiva do Grupo Forja no ano de 1981, ano em que a auto-organização dos trabalhadores estava no centro da vida política nacional, em que se organizou o Conclat (Congresso Nacional da Classe Trabalhadora) que deliberou pela fundação da CUT; momento em que se criava o PT. Tin apontou durante o debate a aguda consciência dos trabalhadores, quando estes perceberam, em suas greves e seus embates com o governo e a patronal, que os sindicatos eram necessários mas insuficientes: era preciso avançar para a organização dos trabalhadores em um partido. Estava presente nesta resolução as lições tiradas pelos grandes revolucionários de nossa história, como Marx, Engels, Rosa, Lênin e Trotsky.

É este o tema que está no centro da peça: unidade das fileiras operárias e auto-organização. Contras as demissões, greve; contra a organização dos patrões e governos, comissões de fábricas e retomar os sindicatos das mãos dos pelegos; contra o desemprego, repartição das horas de trabalho entre todos sem redução dos salários. Não há, contudo, mistificações ou maniqueísmos: e peça mostra as contradições por que passam os trabalhadores em seu processo de tomada de consciência. Mostra como a ideologia burguesa se capilariza entre eles e se instaura na subjetividade de muitos operários, colocando trabalhador contra trabalhador.

Contudo, o que freou tamanho avanço na consciência e organização dos trabalhadores? O que os impediu de, a partir de suas greves, de suas comissões de fábrica, de seus sindicatos e – por que não? – de seus grupos de teatro, avançar para um projeto de derrubada insurreicional da ditadura com um programa que os colocasse à cabeça da sociedade e tomasse medidas concretas para a resolução dos problemas mais sentidos pela população, como a carestia de vida, a concentração de terras no campo, a concentração de renda, a miséria urbana?

Tin apontou durante o debate que a burguesia tirou lições profundas dos levantes operários. Um elemento central que ele apontou foi a tentativa de acabar com as grandes concentrações operárias. Nos anos 70 e 80 as grandes fábricas no ABC concentravam 60, 80 mil trabalhadores. Parafraseando-o: “os patrões não tinham lido o capital, se tivessem lido veriam que já estava lá, que a concentração dos operários é um elemento de força para eles.” Esta constatação não tem nada de menor: a redivisão global do trabalho, a terceirização e as diversas formas de precarização, como a LER-QI e a Fração Trotskista sempre apontam, constituem um dos grandes ataques implementados pela burguesia nos últimos trinta anos.

Os trabalhadores também têm que extrair suas lições dos ascensos revolucionários. E para nós, da LER-QI, há um motivo claro para que a imensa luta protagonizada pelos operários do ABC tenha terminado em uma transição pactuada para uma democracia burguesa degradada, que mantém os torturadores da ditadura impunes, que mantém as favelas e morros ocupados com uma polícia genocida, que mantém a concentração fundiária e os assassinatos no campo, que mantém a universidade elitista para apenas 14% dos jovens, que mantém os negros, as mulheres e os homossexuais oprimidos cotidianamente. Este motivo foi o modo como um grupo, encabeçado pela figura carismática de Lula, dirigiu os trabalhadores para uma estratégia de conciliação com os patrões, ao invés da independência da classe operária com uma estratégia revolucionária. É o que desenvolvemos brevemente em nossa publicação “A classe operária na luta contra a ditadura”.

O fechamento dos levantes operários que pariram o Grupo Forja e centenas de outros fenômenos incríveis em nossa vida política, artística, cultural, entre outros aspectos – muitos dos quais são desconhecidos pelo esforço consciente da burguesia de esconder dos trabalhadores sua própria história – abriu no Brasil um período que se deu no mundo inteiro de profundos ataques aos trabalhadores, à juventude e a todos os setores explorados e oprimidos da sociedade. Aí reside um dos grandes méritos do livro “Peões em Cena”, que resgata esta história para que os jovens e trabalhadores de hoje saibam o que a classe trabalhadora brasileira já fez e do que ela é capaz. Também não é por acaso, como Tin relatou, que o Grupo Forja tenha se extinguido em 1993, e que ele próprio tenha sido demitido pela direção petista do sindicato acusado de ser do PCdoB. Acontece que a direção lulista que hegemonizou a CUT e deu a linha reformista ao PT converteu-se no principal pilar de sustentação da burguesia brasileira e consolidou a burocracia sindical que hoje freia as lutas dos trabalhadores (aliada, aliás, ao PCdoB), como vimos nos recentes exemplos das greves de bancários e ecetistas (correios).

É por nossa geração ter crescido imersa neste período de restauração burguesa que há esta imensa desproporção entre a importância do lançamento deste livro e as poucas pessoas que estavam lá para participar dele. Mas, quando no debate discutíamos sobre a atualidade e permanência da peça “Pesadelo”, víamos não apenas que ela é fundamental hoje por resgatar a experiência de auto-organização dos trabalhadores, mas fundamentalmente porque começamos a entrar em um novo período histórico, marcado pela Primavera Árabe, levantes estudantis no Chile, ocupações em Wall Street e revoltas populares em Londres, levantes de indígenas na Bolívia, entre outros fenômenos desencadeados pela crise econômica que colocam na ordem do dia que discutamos quais são os caminhos que precisamos traçar para a superação definitiva da ordem capitalista.

Para o grupo de estudos de cultura e marxismo a experiência do Grupo Forja e o livro de Tin Urbinatti tem o duplo valor de colocar em pauta as principais discussões estratégicas do marxismo e as lições que temos que extrair deste profundo processo de luta de classes e também de levantar a discussão sobre como a arte se insere neste processo e pode ser tomada como um instrumento de luta e conscientização dos próprios trabalhadores. Devemos nos aliar aos que estão na linha de frente destes debates e levar isto para a classe trabalhadora.

 

A peça “Pesadelo” será encenada no Studio 184, que fica na Praça Roosevelt, nas seguintes datas:

 23 e 30/10, às 20h.

6 e 13/11, às 18h.

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