Qual a contribuição do texto de Gramsci para o grupo de discussão e estudos Cultura e Marxismo

por culturamarxista

POR MAFÊ
Pensar e discutir a realidade não é a mesma coisa que interferir e agir na mesma. Gramsci é conhecido por discutir a questão da “Praxis”, ou seja, como nossa atividade cotidiana e material faz diferença no mundo, ao mesmo tempo que leva ao fim a máxima de Marx: “Os filósofos já trataram de entender a re…alidade. Agora é preciso transformá-la”. Partindo deste pressuposto, sentimos a necessidade de entender como a arte e suas teorias e concepções são entendidas academicamente.
Desta forma, é notável a relação íntima que existe entre alguns pensadores e intelectuais da academia (em especial, a USP) e a política,como sabemos por exemplo que Antônio Cândido é (ou foi) um apoiador (talvez um pouco tímido) do PT, Dalmo de Abreu Dallari (da faculdade de direito da USP) apoiou a candidatura de Luiza Erundina, e Marilena Chauí participou também de experiências políticas nas gestões petistas, (se não me engano, enquanto gestão da Marta Suplicy) apesar de considerar a ideologia como ” falsa consciência”(em seu livro “O que é ideologia”, da coleção Primeiros Passos). Na faculdade de direito, este aspecto é ainda mais visível, com a formação massiva de intelectuais e tecnocratas para quadros da burguesia.
Quando nos propusemos a discutir arte e cultura, a proposta não foi nos colocamos como intelectuais que, da altura de sua posição acadêmica de estudantes da principal faculdade de “excelência” do Brasil, podem olhar para conceitos e fórmulas -ainda que marxistas – para entender o mundo que está abaixo, aos nossos pés. Ao mesmo tempo, enquanto participantes do meio acadêmico, não podemos nos esquivar de nossa posição de pensadores, ou seja, intelectuais. O grande desafio, portanto, é, enquanto críticos, não ficarmos apenas restritos às discussões e teoremas, esbanjando pedantismo e erudição, mas agirmos enquanto grupo para interferir e participar ao lado dos trabalhadores para uma arte transformadora, que combate o capital e sua ideologia reprodutora. Romper com os vernáculos acadêmicos e pensar na arte como libertação, em busca de uma realidade em que seu caráter seja livre das amarras da indústria cultural, inerente ao capitalismo.
No aspecto mais íntimo do texto, percebemos a análise de Gramsci como uma advertencia e até como uma admoestasão: não podemos ser intelectuais que dentro de uma sala da universidade, discutindo arte, se adaptam à organicidade da academia. Os intelectuais orgânicos de Gramsci são aqueles que, em momentos de agudizaçao da luta de classes, através de argumentos técnicos de autoridade, promoverão o consenso (espontâneo ou coercitivo) dos grupos contrários ao aparelho do Estado, disciplinando-os. Seja pela força teórica – o que é importante notar que também é capital acumulado – ou pela baixa auto estima dos trabalhadores que não se enxergam refletidos em nenhuma teoria acadêmica e portanto, nao tem escolha senao aceitar as teorias impostas pela burguesia que é legitimada através destes intelectuais orgânicos .
Para pensarmos a arte como algo que tem que ser livre para a revolução e a revolução como necessária para a arte ser livre, e estes dois aspectos são indissociáveis, isto só é possível com a aliança com os trabalhadores aos estudantes que rompem com a casta intelectual que paira sobre a organicidade acadêmica. Os intelectuais que vivem de prestígio reproduzem conhecimento pelo conhecimento com o fim de preservar a técnica e a permanência de sua condição, e assim acumular capital para fortalecer ainda mais a sua casta (a intelectualidade) formando um ciclo que vicia e aprisiona, e mantém os interesses da burguesia de um conhecimento inacessível e tecnicista, elitista e opressor.
Anúncios