Resumo do seminário “Trotsky e um programa para as artes”, da CEPHS

por culturamarxista

Publicamos abaixo texto originalmente publicado no blog da Casa de Estudos e Pesquisas Hermínio Sacchetta, localizada em Campinas e impulsionada pela LER-QI e pela Juventude às Ruas. O texto baseia-se no seminário ali realizado que discutia as posições dos revolucionários marxistas sobre a arte, pautando-se nas elaborações de Leon Trotsky.

 

por Lídia Raizer, estudante de ciências sociais da Unicamp,militante da Juventude às Ruas e da LER-QI, e Thyago Villela, estudante de artes visuais da USP e militante da LER-QI



No dia 26 de maio, foi realizado na Casa de Estudos e Pesquisa Hermínio Sacchetta um seminário impulsionado pela Juventude às Ruas e pela LER-QI a respeito das concepções de Leon Trotsky sobre a problemática da cultura e das artes. Dada a deriva da esquerda brasileira acerca do tema e a importância que o mesmo possuiu historicamente para os revolucionários, resolvemos debater alguns pontos levantados pelos escritos de Trotsky que o abordam diretamente, no intuito de retomar e avançar nas ricas reflexões deste dirigente bolchevique.
Por que, neste momento de crise histórica do capitalismo, com a juventude e os trabalhadores sendo golpeados pelos planos de austeridade imperialistas e sofrendo cada vez mais com a precarização da vida em todos os seus aspectos (ao mesmo tempo em que dando os primeiros passos para lutar contra essa estrutura de exploração miserável), resolvemos debater arte?
O tema foi historicamente uma das chaves de reflexão para a análise dos revolucionários, tanto no sentido de uma busca por um entendimento preciso das contradições (culturais, ideológicas, políticas) de determinada etapa histórica, quanto no sentido de procurar um entendimento sobre como o fenômeno artístico absorve e constrói a vida social. Basta lembrarmos de como Marx, por exemplo, se debruçou sobre a obra de Balzac, ou ainda como Plekhanov, que trouxe o marxismo à Rússia, procurou responder a tais questões (com todas as suas debilidades teóricas – e políticas – neste âmbito). O pensamento de Trotsky é parte desta tradição que procurou responder profundamente os distintos aspectos da vida em perspectiva revolucionária. No caso das artes, foi a contracorrente em relação à maioria dos dirigentes bolcheviques e, posteriormente, foi o ferrenho opositor do “realismo socialista”, da censura fascista e stalinista, e da subordinação da criação artística ao capital.
Em um contexto em que a maior parte da esquerda (inclusive trotskista) encontra-se sob hegemonia do legado stalinista (defendendo posições tais como a de uma “arte didática”, uma arte que heroicize o proletariado, etc) ou de seu desdobramento maoísta, retomar e aprofundar as reflexões de Trotsky significa abrir espaço para a elaboração de uma política capaz de responder e compreender seriamente aos problemas da cultura (os quais, em um país semi-colonial como o Brasil, já mostram sua face, como bem o explicitam as duas ocupações da FUNARTE no ano passado).
Discutimos a compilação de artigos de Trotsky reunidas em Literatura e Revolução, de 1924 – centralmente os capítulos 5, “A escola de poesia formalista e o marxismo” e 7, “A política do Partido na arte” – e também o Manifesto Por uma arte revolucionária independente (Manifesto da FIARI, de 1938), redigido em conjunto com o dirigente surrealista André Breton, procurando buscar as definições centrais e as lições que devemos extrair destes textos. Trotsky se detém, nos dois capítulos mencionados, a analisar dois aspectos importantes: a perspectiva marxista em relação às artes e a relação do partido revolucionário com a produção artística e os artistas. Trotsky escreveu Literatura e Revolução num contexto político de início da burocratização do Estado Operário russo e de início da censura às artes. O Manifesto da FIARI, escrito quatorze anos depois, data dum período de censura stalinista direta, por um lado (com a imposição do “realismo-socialista”), e censura fascista por outro. Desenvolveremos abaixo algumas das conclusões do seminário.
A perspectiva marxista em relação à arte

No capítulo de Literatura e Revolução “A escola formalista de poesia e o marxismo”, Trotsky combaterá o manifesto da escola formalista russa escrito por Viktor Tchlovski. O movimento formalista data de 1914, e manteve como uma de suas premissas consensuais (uma das poucas, diga-se de passagem) a análise das obras de arte a partir apenas de suas relações formais. A poiésis de cada suporte artístico, isto é, o elemento específico de cada suporte (no caso da literatura, o jogo de palavras; no da poesia, a métrica; no do cinema, a imagem em movimento ou a montagem, etc) deveria ser o elemento investigado em qualquer crítica ou pesquisa, e este elemento bastaria por si só para explicar o desenvolvimento das correntes artísticas.
O manifesto de Tchlovski mencionado é uma crítica ao materialismo dialético, ao qual Trotsky oporá a perspectiva marxista, capaz de explicar concretamente o porquê do surgimento histórico de cada tendência artística, por dentro inclusive do que o bolchevique chama de “leis próprias da arte” (em contraposição à leitura economicista que o formalista faz do marxismo). Nas palavras de Trotsky:
É indiscutível que a necessidade da arte não é criada pelas condições econômicas. Mas tampouco a necessidade de alimentação é criada pela economia. A necessidade de alimentação e calor, pelo contrário, é que cria a economia. Nem sempre se podem seguir somente os princípios marxistas para julgar, rejeitar ou aceitar uma obra de arte. Esta deve ser julgada, em primeiro lugar, segundo suas próprias leis, isto é, segundo as leis de arte. Mas só o marxismo pode explicar por que e como, num determinado período histórico, aparece tal tendência artística; em outras palavras, quem expressou a necessidade de certa forma artística, e não de outras, e por quê.” (p. 144)

E ainda:
O materialismo não nega a importância do elemento formal, seja na lógica, na jurisprudência ou na arte. Assim como um sistema jurídico pode e deve julgar segundo sua lógica e coerência internas, a arte pode e deve julgar do ponto de vista de suas realizações formais, pois fora delas não pode haver arte.” (p. 144)

A partir de um resgate do materialismo histórico, Trotsky aponta as deficiências das críticas ao mesmo levantadas pelo formalismo russo. Se é indispensável a análise formal às obras de arte, é também indispensável a compreensão da produção artística como produto social e histórico. O bolchevique combate, em suma, a visão idealista que a escola formalista propõe, de que a arte seria uma “criação elevada”, descolada da realidade do artista, uma “arte pura”, em cuja produção os meios sociais, econômicos e culturais não influenciariam. Trotsky vai retomar, neste sentido, a idéia de função social da arte:

As querelas sobre arte pura e arte dirigida irrompem entre liberais e populistas. Elas não nos afetam. A dialética materialista está acima disso: para ela, a arte, do ponto de vista do processo histórico objetivo, é sempre um servo social, historicamente utilitário” (p. 137)

Assim, na medida em que posta em circulação, a obra de arte possui (independentemente da vontade de seu criador) uma função, precisamente porque ela não está suspensa no ar, situa-se historicamente e se defronta em seu nascimento com seu “impulso originário”, a matéria, mas impondo-se com suas próprias leis (não reflete a realidade sem combinar-se com o estado de ânimo inspirado na obra pelo artista): será apreendida por determinados sujeitos históricos e suscitará determinadas questões – que podem mudar conforme o desenvolvimento histórico. Uma “arte revolucionária”, neste sentido, seria aquela capaz de, a partir das “leis próprias” ao fenômeno artístico, promover um conteúdo e uma forma emancipatórias, “servindo”, em última instância, à única classe objetivamente revolucionária – o proletariado.1 Essa idéia nada tem a ver com uma arte dirigida pelo Partido. Pelo contrário:
Nossa concepção marxista do condicionamento social e objetivo e da utilidade social da arte não significa, quando traduzida para a linguagem política, o desejo de dominar a arte por meio de decretos e prescrições. É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que fala do operário. Não passa de absurdo dizer que exigimos dos poetas apenas obras sobre chaminés de fábricas ou sobre uma insurreição contra o capital. A nova arte, por sua própria natureza, terá necessariamente de colocar a luta do proletariado no centro de sua atenção. A relha da nova arte, entretanto, não se limita a um certo número de sulcos: deve ao contrário trabalhar e revolver todo o terreno, no comprimento e na largura.” (p.138)

Toda licença em arte”

Como continuação das questões levantadas pelo tópico anterior, no capítulo sétimo de Literatura e Revolução, “A política do Partido na arte”, Trotsky desenvolverá seu posicionamento sobre uma política de não-direção do Partido em relação à produção artística, na contracorrente de um início da burocratização e coibição das formas artísticas que não estivessem de acordo com o que o Estado soviético endossasse. A censura, neste momento, assumia formas indiretas, como a de não-financiamento da produção modernista e de amplo fomento da pintura figurativista, por exemplo. O revolucionário se apoiará no que já havia expressado no capítulo 5, acerca das tendências artísticas serem explicadas (no sentido histórico) pelo marxismo, mas jamais tendo como crivo único o mesmo. A arte possui suas próprias leis, e a criação artística não pode ser coibida, deve ser impulsionada de modo que o artista se sinta livre para criar o que bem entender. Trotsky prevê, para o Estado Operário, uma ampla disputa entre as tendências artísticas como condição para o florescimento de novas formas em arte. A política do Partido que o bolchevique preconiza pode ser expressa, de maneira sucinta, nesse parágrafo:
O partido dirige o proletariado, não os processos da história. Sim. Há domínios nos quais ele dirige de forma direta e imperativa. Há outros em que apenas inspeciona e ajuda. E, por fim, alguns nos quais somente se orienta. A arte não é um domínio que se chame o Partido a comandar. Ele pode e deve protegê-la, estimulá-la e só indiretamente dirigi-la. Deve conceder sua confiança aos grupos que aspiram sinceramente a aproximar-se da Revolução e encorajar sua formulação artística. (…) O Partido defende os interesses históricos da classe operária no seu conjunto. Prepara o terreno, passo a passo, para a nova cultura, a nova arte.” (p. 173)

O que pode ser complementado por:
Isso quer dizer que o partido, contradizendo seus princípios, adota uma posição eclética no domínio da arte? O argumento que parece fulminante é meramente infantil. O marxismo oferece diversas possibilidades: avalia o desenvolvimento da nova arte, acompanha todas as mudanças e variações por meio da crítica, encoraja as correntes progressistas, porém não faz mais do que isso. A arte deve abrir por si mesma seu próprio caminho. Os métodos do marxismo não são os mesmos da arte.” (p. 173)

Trotsky combaterá nesse capítulo, também, a noção de uma cultura proletária (vigente na tradição intelectual russa e bolchevique desde aproximadamente 1910) e retomará o interessante argumento do descompasso histórico entre política, economia e cultura.2 Resgatando o preceito de que “a consciência política do proletariado avança aos saltos” numa situação revolucionária convulsiva, o dirigente bolchevique dirá que devemos encorajar e incentivar os artistas, deixando que eles se ocupem do avanço das novas formas e tendências artísticas, pois o operariado, em última instância, estará ocupado com a revolução política, social e econômica – estará ocupado em transformar a sociedade primeiramente nesses aspectos, inclusive para que a arte possa ser verdadeiramente livre. Não há nisso contraposição entre os papéis do revolucionário e do artista: podem perfeitamente se fundir, contribuindo com o máximo em cada uma dessas dimensões. O que sim existe é um descompasso, neste sentido, entre uma revolução político-econômica e a revolução no campo da cultura, e não uma identidade imediata.
O proletariado, embora seja espiritualmente e, por conseguinte, artisticamente sensível, não recebeu educação estética. É pouco provável que seu caminho comece no ponto onde a intelligentsia burguesa se deteve, antes da catástrofe. Assim como o indivíduo, a partir do embrião, repete biológica e psicologicamente a história da espécie e, numa certa medida, de todo o mundo animal, a nova classe, cuja imensa maioria emerge de uma existência quase pré-histórica, deve refazer por si mesma toda a história da cultura artística. Ela não pode edificar uma nova cultura antes de absorver e assimilar os elementos das antigas culturas.”

E mais:
A conquista mais valiosa do progresso cultural que hoje se inicia consistirá na elevação das qualidades objetivas e da consciência subjetiva da personalidade. Seria pueril pensar que as belas-letras burguesas possam abrir brechas na solidariedade de classe. O que Shakespeare, Goethe, Púchkin e Dostoiévski darão ao operário será, antes de tudo, a imagem mais complexa da personalidade, de suas paixões e sentimentos, uma percepção mais nítida de seu subconsciente etc. O operário, afinal, se enriquecerá.” (p. 177).

Uma “cultura proletária”, portanto, seria uma mera tentativa de invenção de uma cultura em laboratório. A classe operária não realiza uma revolução para fundar uma nova cultura de classe, mas para abrir as portas para uma cultura verdadeiramente humana, que possa ser absorvida pela humanidade de conjunto, contra uma classe exploradora que nos veda o acesso à cultura e à educação. Assim, a incorporação dos elementos mais avançados e enriquecedores produzidos pelas culturas anteriores deve ser uma das tarefas da revolução comunista.
No Manifesto da FIARI, Trotsky, junto ao líder do movimento surrealista André Breton, é ainda mais incisivo na consigna revolucionária “Toda licença em arte”.3 O texto se localiza em um contexto de censura nazi-fascista e stalinista às vanguardas artísticas, bem como de crescimento da indústria cultural norte-americana, o que punha como tarefa central aos revolucionários uma defesa irrestrita das correntes vanguardistas. Discutimos no seminário o resgate que Trotsky faz das idéias já contidas em sua obra anteriormente mencionada, bem como as influências do pensamento de Breton na elaboração do Manifesto (a noção de arte como sublimação, por exemplo).
Muitos outros aspectos levantados no seminário poderiam ser abordados aqui, o que excederia – infelizmente – os limites deste post. A riqueza do pensamento de Trotsky em relação ao tema suscitado é vasta, e possui o caráter de uma reflexão viva lançada à luz dos acontecimentos revolucionários de Outubro e, posteriormente, à degeneração e burocratização do Estado soviético. Muito se diferencia, portanto, da crítica estética empreendida pelos “marxistas ocidentais” (conforme os denomina Perry Anderson) centrados, por exemplo, na crítica estética ao realismo-socialista de forma descolada da crítica à degeneração da revolução e à montagem do regime stalinista (como o faz Gyorgy Lukács em seus numerosos textos de “cruzada ao verdadeiro realismo”), ou ainda nas análises mecanicistas do tipo “degeneração burguesa = arte degenerada”.
Aos problemas e contradições colocados hoje pela crise econômica capitalista, que se fundamenta, ideologicamente, na imensa indústria cultural burguesa, o resgate das elaborações de Trotsky faz-se imperativo para responder aos amplos ataques aos artistas, juventude e trabalhadores, e à miséria estratégica da esquerda internacional sobre o tema. Os problemas objetivos da cultura e da arte, no sentido de uma democratização radical do acesso aos meios para a produção artística, aos museus, aos teatros, aos cinemas, etc, só pode dar-se mediante à luta da classe trabalhadora por sua emancipação.
1 O que não deve ser confundido com a proposição de um tipo específico de arte ou uma defesa direta a alguma corrente artística existente no período. Trotsky refere-se à “servidão” da arte ao proletariado não em sentido utilitarista e pragmático, mas no sentido de que a arte possui a capacidade de renovação dos sentimentos e intelecto, de ampliação da dimensão sensível humana e de atuação concreta sobre a realidade.
2 Já desenvolvidos anteriormente por Marx e Engels. Cf., como exemplo, a carta de Engels à Minna Kautsky , de 1885.
3 Existe um amplo debate sobre se existe um posicionamento diferenciado de Trotsky em Literatura e Revolução e neste Manifesto. Não nos deteremos aqui nesta discussão, a qual mereceria um maior espaço para sua abordagem.
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