Por que voltar ao Manifesto da FIARI?

por culturamarxista

POR PARDAL

De todos os dirigentes revolucionários marxistas, Trotski foi aquele que dedicou uma parte de sua atividade a pensar a relação entre os artistas e a revolução. Após a tomada do poder, em “Literatura e Revolução” debruçou-se sobre esta questão, escrevendo um livro que não apenas traçava um rico panorama da literatura russa pré e pós-revolução de outubro, como também se dedicava a refletir em profundidade a relação da ditadura do proletariado com o financiamento e desenvolvimento da arte, bem como a relação do partido revolucionário com esta produção. Pode-se remontar desde aí a luta, que depois toma uma forma mais aguda, entre a concepção de Trotski de garantir a liberdade aos artistas para que se desenvolvessem, e as concepções da Proletkult de uma “arte proletária”, que depois serão tomadas de forma ainda mais nefasta e castradora ao criar-se o “realismo socialista” como fórmula a ser imposta a todos os artistas.

A consolidação do stalinismo como uma contrarrevolução dentro da revolução – o Termidor da Revolução Russa – é o elemento mortal para o riquíssimo período de florescimento cultural pós-revolucionário, que incluiu imensos avanços no campo da ciência e da arte. Em “A geração que esbanjou seus poetas”, Roman Jakobson dá um breve panorama de quantos foram os artistas que sucumbiram sob o imenso peso da burocracia soviética, nomes como Maiakóvski e Isaac Bábel. No campo da ciência, nomes como Bakhtin e Vigotski tiveram seus trabalhos suprimidos.

Por outro lado, o destino que o capitalismo reservava aos artistas não era nada animador. A indústria cultural que se consolidava fortemente no ocidente como mais um importante nicho de reprodução do capital reservava cada vez mais aos artistas o papel de um trabalho alienado e reprodutor da ideologia burguesa. A arte atingia o auge de sua submissão ao capital. Muitos artistas que queriam uma opção para produzir sua arte acabavam por se submeter aos ditames da “arte” stalinista pois o importante aparato dos Partidos Comunistas (stalinistas) ao redor de todo o mundo podia lhes garantir a produção e circulação de sua arte, contanto que se curvassem diante do “grande camarada Stálin”, transformando, assim, sua arte em uma casca estéril e reprodutora da ideologia oficial da burocracia do Kremlin.

É diante deste quadro que surge um forte diálogo entre o artista surrealista francês André Breton e o revolucionário russo, agora exilado e perseguido, Leon Trotski. Breton, expulso do Partido Comunista Francês por suas divergências com o stalinismo, toma conhecimento da fração internacional dirigida por Trotski que continua defendendo os ideais e métodos do bolchevismo que fora peça fundamental para o triunfo da primeira revolução vitoriosa da classe trabalhadora. E que, durante os anos que precederam a burocratização stalinista, permitiram o desenvolvimento mais livre e frutífero das artes.

Em 1938, quando o mundo se encontrava às vésperas da segunda matança em escala mundial promovida pela competição entre as ganâncias das potências imperialistas, o encontro entre Breton – representando os artistas que desejavam a verdadeira liberdade da arte, tanto da burocracia do Kremlin como do grande capital – e Leon Trotski – representando a continuidade dos ideais revolucionários da revolução – deu como resultado o Manifesto “Por uma arte revolucionária independente”, marcando uma posição efetivamente revolucionária diante da situação de crise, cuja resposta dentro dos marcos do capitalismo só poderia ser de mais miséria e sofrimento para os trabalhadores e todos os setores explorados e oprimidos.

Retomamos este Manifesto para que possamos refletir a atualidade destas reflexões, pensando sobre o momento atual e a situação da cultura e das ciências em nossa sociedade, pensando qual é sua liberdade e a sua função diante de um mundo que entra no quinto ano de uma crise econômica em escala mundial, e no qual cada vez mais vemos os movimentos da juventude e dos trabalhadores para resistir aos ataques impostos pela burguesia e os governos para salvar os lucros. Como os artistas, intelectuais e cientistas podem se posicionar neste cenário?

Ao mesmo tempo, há alguns anos assistimos um movimento dos artistas do teatro de grupos em São Paulo que representam um setor disposto a fazer uma arte independente e ligada aos interesses das classes exploradas, cuja maior conquista foi arrancar a Lei de Fomento ao Teatro do município de São Paulo. Contudo, é necessário superar uma série de dificuldades e limites para que este movimento possa seguir adiante em sua ligação à única classe social capaz de dar uma saída para a miséria capitalista. Acreditamos que há lições valiosas a se tirar do movimento esboçado pela FIARI há algumas décadas.

Por isso chamamos todos a participar dos debates do Grupo de Estudos de Cultura e Marxismo para refletir sobre o papel da cultura em um mundo marcado por estas contradições.

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