A arte revolucionária independente não pode ser “reduto” nem de Serra e nem de Haddad!

por culturamarxista

Por Pardal (publicado originalmente no blog Entropia Dialética)

Foi divulgado no Facebook um e-mail de um membro da Cia Os Satyros de teatro que mostra o que todos já sabem: sua ligação orgânica e umbilical com o PSDB e, particularmente, com Serra. Eis a peça:

“Assunto: [psdbcultura] socorro!
Enviada: 03/10/2012 21:25

Queridos,
Sexta vai ter uma manifestação aqui na Roosevelt, organizada a partir do Face. Na verdade, eles se dizem apartidários, mas cheguei a noticia de que vêem em nome do PT. Precisamos fazer alguma coisa e com urgência. Não sei, talvez nos reunirmos pessoalmente. Amanha, vcs poderiam? Tipo na hora do almoço? Podíamos nos encontrar na Roosevelt. É importante!!! E urgente!!! Socorro!SAtyros Um, meio dia, pode ser?
É muito, muito importante.
Inclusive, não irei a minha aula na USP só por causa disso, ok?

SAtyros Um, meio dia, pode ser?
É muito, muito importante.
Inclusive, não irei a minha aula na USP só por causa disso, ok?

Vamos acabar com “eles” e mostrar q a arte é reduto do Serra!

Podem trazer pessoas, vamos nós organizar!!!

No inicio tb não dei bola.
No convite, inclusive, eles afirmam q é “apartidário”, embora seja contra Russomanno.
No entanto, to vendo um bando de petistas se organizando.
Acho q precisamos nós unir.

Ivam Cabral
Enviado via iPad”

Isto, em si, não é novidade. Todos sabem que há uma troca de favores por ali. A SP Escola de Teatro, feita por Serra, é fruto direto desta maracutaia. E a própria existência dos Satyros é uma demonstração da lamentável servilidade a que podem chegar certos “artistas” em sua tentativa de conseguir as migalhas da “elite ilustrada”. E a Praça Roosevelt, por sua vez, virou o símbolo desta mediocridade. De arte, não sobra muito por ali, com uma ou outra honrosa exceção. O que há de sobra é gente querendo “ver e ser vista” com sua produção artística servil e insossa; querendo pagar de “intelectual e artista”. A última vez – última mesmo! – que pisei no teatro d’Os Satyros foi para ver “Os 120 dias de Sodoma”. Só para algum leitor da Veja entediado, que resolveu trocar sua novela habitual por um programa mais “intelectual”, aquela imbecilidade pode representar algo interessante. Pobre Marquês de Sade, que teve sua obra transformada em bibelô para colorir as noites da burguesia paulistana. Não se poderia esperar algo distinto de quem quer requentar as fórmulas prontas de ontem para ser louvado pela mediocridade intelectual de hoje. Este é o único tipo de “artista” – estes que fazem o teatro de Miguel Falabela na escala do semiamadorismo – que poderia proferir o excremento verbal de que “A arte é reduto do Serra”. É o servilismo artístico em sua expressão política.

Contudo, o que me incomoda muito mais é um expressivo setor do movimento de teatro de grupo em São Paulo, muitos com uma produção artística muito rica e interessante, e que no plano teórico reivindica o marxismo, afirma se colocar politicamente ao lado dos explorados, mas que chega na hora da eleição, mal saem de sua peça “revolucionária” e se colocam a fazer uma campanha deslavada para o petismo. Muitos dos mesmos que ontem ocuparam a Funarte, exigindo políticas públicas para a cultura e contra o corte de verbas que reduziu o orçamento da arte de 0,2% para 0,06% do PIB, hoje saem a defender o voto no mesmo partido que fez este criminoso ataque à já indigente verba cultural. Grupos que nas suas peças combatem a ditadura e seus resquícios, mas que depois colocam isto na gaveta para votar e chamar publicamente o voto em Haddad, que está abraçado ao governador biônico da ditadura Paulo Maluf, que colocou a “Rota na rua” e foi um dos responsáveis pela criação do cemitério clandestino de Perus, onde se enterraram sabe-se lá quantos lutadores e militantes assassinados e torturados brutalmente pela ditadura. São estes grupos de teatro que dizem defender uma cultura universal, popular, para os trabalhadores e o povo, mas chamam voto no Haddad que foi um dos grandes privatizadores da educação através do ProUni, e promoveu a precarização das universidades com a expansão sem verbas do REUNI.

Passa da hora dos grupos de teatro que reivindicam o teatro épico de Brecht, fundado no materialismo dialético de Marx e Engels, entenderem de uma vez por todas que este teatro revolucionário é fruto indissociável de uma luta política à morte contra a burguesia, pela independência política da classe trabalhadora, pela revolução socialista e pela ditadura do proletariado! É hora de tomar em suas mãos o marxismo não apenas como uma formulação estética ou uma declaração de posições em abstrato que se desmancham na primeira prova concreta da realidade! O marxismo é, antes de mais nada e sobretudo, a ferramente política de luta da classe trabalhadora na longa batalha pela emancipação da humanidade. Negociar alguns editais ou leis progressistas com o partido que se tornou o principal sustentáculo da burguesia no Brasil, levando a cabo ataques severos à classe trabalhadora, com corte de pontos de grevistas, repressões às greves nas universidades e canteiros de obras, conluio com as oligarquias centenárias do latifúndio e a grande burguesia monopolista do capital financeiro é dar as costas para o marxismo! É dar as costas para a luta para a possibilidade de uma arte verdadeiramente independente e livre! Para uma sociedade em que todos possam efetivamente ter tempo, educação, disposição para fazer e desfrutar da arte, sem a opressão e a exploração que sufocam a humanidade hoje.

A arte não é reduto da burguesia reacionária que está representada nas eleições por Serra e Russomano. Tampouco pode ser reduto da burguesia “light” que faz uma ou outra concessão com a mão esquerda enquanto golpeia os trabalhadores, a juventude, os artistas, as mulheres, os negros e homossexuais com sua mão direita, aliando-se aos setores mais reacionários da sociedade. Olhemos para trás, companheiros artistas, para aqueles que nos inspiram no campo artístico, e aprendamos também com suas atitudes políticas, que em nenhum momento se dissociaram de sua arte: Maiakóvski foi um ardente combatente ao lado dos bolcheviques, o único partido que foi capaz de permanecer fiel aos interesses da classe trabalhadora e do socialismo e levar a revolução à vitória; Brecht extraiu seu teatro dialético em grande medida de suas experiências ao lado da classe trabalhadora, tendo sido delegado no conselho operário de Munique, um órgão equivalente ao soviete, que organizava de forma independente da burguesia os trabalhadores; André Breton se aliou ao Partido Comunista Francês pela luta antiimperialista na guerra de Marrocos, mas rompeu com este por ver que não apenas sufocava a arte com a mordaça do “realismo socialista”, mas também pelo beco sem saída de suas políticas de aliança com a burguesia “democrática” contra o fascismo. Foi aliado da luta pela política operária independente mesmo quando esta esteve em minoria na Oposição de Esquerda e na IV Internacional. Escreveu com Leon Trotsky o manifesto “Por uma Arte Revolucionária e Independente”, cujas linhas ainda tem muito a ensinar para os trabalhadores da cultura de hoje como travar uma luta por uma arte livre e emancipada.

A arte que queremos tem que ser revolucionária e independente! E para isso deve ser independente de todas as frações da burguesia: não é reduto de Serra, nem de Kassab, nem de Haddad ou Marta Suplicy! A arte deve ser o reduto de apoio ativo e incondicional às lutas dos trabalhadores por uma sociedade sem classes! Retomemos o lema da FIARI: “A independência da arte para a revolução; A revolução, para a libertação definitiva da arte!”

PS: Posteriormente Ivam Cabral veio a público desmentir que a mensagem postada acima fosse dele com o seguinte comunicado

MENSAGEM DO IVAM:
AMOR SIM; RUSSOMANNO, NÃO!
Em primeiro lugar, quero deixar claro que sou um democrata e republicano. Acredito que vivemos num país livre onde todos temos a liberdade de expressão como direito fundamental. Sendo assim, nunca me omiti e sempre disse que meu candidato se chama José Serra. Isso não me impede de respeitar outros bons políticos que temos na eleição municipal deste ano, como Soninha Francine, Carlos Gianazzi e o próprio Fernando Haddad.
Discordo frontalmente de Celso Russomanno por uma série de questões que não vêm ao caso aqui. Por isso, considero a manifestação de amanhã importante. Assim, jamais estimularia um conflito PT X PSDB.
Quem me conhece sabe que o grupo Os Satyros sempre lutou pelo respeito à diferença. Em nosso grupo, temos de evangélicos a adeptos de religiões afrobrasileiras, de petistas a tucanos.
Acredito piamente nas palavras de Voltaire: “discordo das suas opiniões, mas lutarei até a morte para que você possa expressá-las”.
No entanto, o e-mail atribuído a mim não corresponde nem ao que penso e nem como ajo. Não sei como este lamentável episódio pode acontecer. Nem pretendo investigar ou estimular rancores. Já não é a primeira vez nesta eleição que meu nome é usado sem a minha autorização.

Seja ou nao de sua autoria a mensagem convocando a mostrar que a arte é reduto de Serra, esta nota explicativa apenas confirma os juízos emitidos sobre a sua produção e suas posições políticas…

 

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