Crítica a “O direito à Literatura” – Parte 1

por culturamarxista

Candido

Por Pardal

Em primeiro lugar é importante ressaltar a grande relevância de Antonio Candido na tradição da crítica literária brasileira. Em relação à sua notoriedade e influência é desnecessário dizer qualquer coisa: como expressaram os participantes do Grupo de Estudos, sejam os da USP como a que se formou na UniFieo, a sua utilização como embasamento para os cursos de literatura é praticamente unânime. Em relação a seu modo de enxergar a literatura, Candido também representou, a seu tempo, um movimento bastante progressista em relação à nossa tradição bastante elitista. Sua visão que se apropria de elementos bastante dialéticos entre a literatura e a sociedade; seu ímpeto democratizante em relação ao acesso à literatura; a influência que em determinados momentos sua obra recebe do pensamento marxista constituem pontos de apoio fundamentais para o avanço de consciência dos estudantes de literatura que têm acesso ao pensamento de Antonio Candido.
Contudo, sua canonização como “patrono” das Letras o colocou em um pedestal intocável que não pode estar afinado com nenhum pensamento verdadeiramente crítico. Assim como Candido foi um baque nas tradições literárias de seu tempo, nossa meta é rever seus valores e pressupostos de forma dialética, tomando para nossa prática e reflexão o que ele possui de mais avançado e criticando aquilo que ele tem de limitações e insuficiências para que possamos avançar. Esta era nossa ambição ao escolher um texto do mais influente crítico literário brasileiro: partirmos de nosso currículo para ver onde e como o marxismo pode servir de ponto de apoio para repensarmos as nossas tradições.

Forças produtivas e relações de produção X racionalidade técnica e irracionalidade do comportamento

Em “O Direito à Literatura” Candido parte de um pressuposto profundamente marxista: o de que o avanço do domínio do homem sobre a natureza constitui o pressuposto para o avanço de uma sociedade. Para Marx, o trabalho é a capacidade do ser humano de dominar a natureza para satisfazer as suas necessidades; conforme aumenta sua capacidade de relacionar-se com o mundo a partir da mediação do trabalho, seja para garantir suas necessidades mais primordiais, como abrigo e comida, seja para criar coisas jamais sonhadas pelos nossos antepassados, como energia atômica ou a Internet, a nossa capacidade de transformar e criar as condições de nossa própria existência é a base material a partir da qual constituímos nossas vidas. A estas formas de criar, a partir do trabalho, as bases materiais para nossa existência, Marx chamava forças produtivas ou meios de produção. Candido, contudo, apesar de apoiar-se neste conceito de Marx, em seu texto prefere chamá-las de “racionalidade técnica e domínio sobre a natureza”. Esta mudança, veremos, não é ao acaso e tem conseqüências importantes.
Em seguida, Candido aponta que “[em nosso tempo] No entanto, a irracionalidade do comportamento é também máxima, servida freqüentemente pelos mesmos meios que deveriam realizar os desígnios da racionalidade. Assim, com a energia atômica podemos ao mesmo tempo gerar força criadora e destruir a vida pela guerra; com o incrível progresso industrial aumentamos o conforto até alcançar níveis nunca sonhados, mas excluímos dele as grandes massas que condenamos à miséria (…) Portanto, podemos dizer que os mesmos meios que permitem o progresso podem provocar a degradação da maioria”.
Este raciocínio, aparentemente correto, oculta no entanto uma diferenciação fundamental feita por Marx: a das forças produtivas e as relações de produção. Se as forças produtivas representam a técnica, a tecnologia, o emprego do trabalho na modificação da natureza etc., as relações de produção são as formas sociais como se empregam estas forças produtivas, ou seja, como se realiza e se distribui socialmente o trabalho e os frutos do trabalho humano. Marx aponta como o capitalismo foi fundamental para o desenvolvimento das forças produtivas, fazendo a humanidade dar incríveis saltos que vão desde a máquina a vapor até a energia atômica. A contradição fundamental que existe nas relações de produção do capitalismo é que a produção da riqueza é socializada: ela é feita de forma coletiva e pode incluir centenas ou milhares de trabalhadores, que vão desde a extração das matérias primas, que pode ocorrer em diversos cantos do planeta, passando por sua produção, que pode também envolver diferentes locais e pessoas (pensemos na produção de um carro, em que as peças são feitas em diferentes fábricas e há uma outra apenas para montar o veículo), e em seguida a sua distribuição, que é uma parte não menos importante da produção. No entanto, a apropriação da riqueza é privada: todos os que trabalharam para a produção do carro recebem apenas um salário que representa uma parte ínfima da riqueza gerada pela produção do carro; a grande parte da riqueza é apropriada sob a forma de mais-valia pelos que são donos dos meios de produção, ou seja, do instrumental que é utilizado para a produção do carro (que vai desde as máquinas da fábrica até a concessionária onde ele é vendido).
Em determinado momento do desenvolvimento capitalista, estas relações de produção passam a impedir o desenvolvimento das forças produtivas. Isto pode ocorrer desde o impedimento de utilização de trabalho humano, através do desemprego, por exemplo; passando pelo impedimento do desenvolvimento de novas tecnologias (pensemos, por exemplo, no lobby bilionário da indústria automobilística e petrolífera que impede o desenvolvimento de formas mais avançadas de transporte coletivo e combustíveis limpos) e chegando até mesmo à destruição em massa de forças produtivas a partir da guerra. Como coloca Marx: “Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que não é mais que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no interior das quais se tinham movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em suas travas. E assim se abre uma época de revolução social.
Candido passa por alto esta importante distinção entre forças produtivas e relações de produção, apontando a contradição entre o alto desenvolvimento da técnica e a grande miséria existente em termos como “irracionalidade do comportamento” ou até mesmo “insensibilidade”. Diz que são “os mesmos meios” que permitem o progresso ou causam a degradação da maioria. Isto é incorreto, pois não são os meios que provocam esta degradação, mas sim aqueles que possuem estes meios e a forma como são utilizados. Esta omissão é fundamental porque leva a uma grande distorção na forma de resolver o problema: para Candido, é uma questão de “racionalidade” ou “insensibilidade”. Frente a isto, portanto, a solução seria mais lógica seria a “conscientização” ou a “sensibilização”, caindo implicitamente na mesma proposta que faziam diversos socialistas utópicos anteriores a Marx: que os ricos devem distribuir “espontaneamente” sua riqueza a partir da conscientização da injustiça. Curiosamente, Candido critica estes socialistas no texto, mas o principal ponto de sua crítica reside no que há de mais avançado nestes: a proposição de uma igualdade social radical entre os homens. A isto Candido responde que devemos buscar “(…) não mais o estado ideal sonhado pelos utopistas racionais que nos antecederam, mas do máximo viável de igualdade e justiça, em correlação a cada momento da história”.
Para Marx a solução do problema pode ser explicada sucintamente em sua frase: “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores” Ou seja, aqueles que hoje são os sujeitos sociais que tudo produzem, mas que também são os que se encontram diretamente prejudicados pelas relações de produção hoje existentes que possuem o potencial para transformar isto. Assim, é oposta à visão de que é um mero problema de “racionalidade” ou “insensibilidade”, mas sim de que a burguesia, classe social que detém a propriedade privada dos meios de produção, fará de tudo para assegurar seus próprios privilégios materiais.

Idealismo, materialismo e classes sociais

Um ponto fundamental em que Candido se afasta do marxismo e que está presente em todo seu texto, tendo conseqüências fundamentais para sua análise, é a forma de entender a relação entre o mundo concreto e as ideias. O método de análise do marxismo é o materialismo dialético, que procura entender o mundo a partir das questões concretas e a forma como ideias e mundo material se influenciam reciprocamente, mas com peso preponderante na vida material dos homens. Nas palavras de Marx: “As representações, o modo de pensar, a comunicação espiritual entre os homens se apresentam aqui, ainda, como emanação direta da sua relação material, tal como se manifesta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. Os homens são os produtores das suas representações, das suas idéias etc. – mas se trata de homens reais e ativos, condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e pelo intercâmbio a ele correspondente, inclusive das suas formas mais desenvolvidas.”
Ou seja, as ideias tem uma correspondência fundamental com a sociedade na qual são produzidas, e, mais do que explicar a sociedade em que foram concebidas, elas devem ser explicadas a partir do entendimento desta sociedade: “Do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo a partir do julgamento que ele faz de si mesmo, igualmente não se pode julgar essas épocas de transformação a partir da sua consciência mesma – ao contrário, há que se explicar esta consciência pelas contradições da vida social, pelo conflito existente entre as forças produtivas sociais e as relações de produção.”
Esta noção marxista que tentamos resumir acima se opõe ao método que Candido utiliza em seu texto, que podemos chamar de “idealista”, pois parte das ideias para tentar explicar as relações sociais e a época, fazendo com que o entendimento das ideias se dê de forma relativamente autônoma do entendimento das condições materiais em que elas são produzidas. Ao analisar a questão da miséria e da barbárie que existem em uma sociedade profundamente desigual, Candido a contrasta com um otimismo que, segundo ele, podemos ter a partir da mudança do discurso e das idéias em relação aos pobres. Ainda que não despreze o aumento da miséria, ele relativiza a importância disto frente aos “motivos para ser otimista” que são apresentados no plano das ideias. Vejamos um exemplo: “É verdade que a barbárie continua até crescendo, mas não se vê mais o seu elogio, como se todos soubessem que ela é algo a ser ocultado e não proclamado. Sob este aspecto, os tribunais de Nuremberg [tribunais que julgaram os crimes do nazismo] foram um sinal dos tempos novos, (…) Fazem-se coisas parecidas e até piores, mas elas não constituem um motivo de celebração. Para emitir uma nota positiva no fundo do horror, acho que isso é um sinal favorável, pois se o mal é praticado, mas não proclamado, quer dizer que o homem não o acha mais tão natural”.
Outros trechos poderiam ser citados para ilustrar o fato de que Antonio Candido acredita que a mudança no discurso é o primeiro passo para a mudança concreta. O marxismo, contudo, entende no conceito de ideologia a chave para explicar esta contradição entre discurso e a prática: a ideologia é o modo como as ideias são utilizadas para ocultar e distorcer a realidade, de modo a convencer os explorados que sua exploração é justa. Este mecanismo é tão importante quanto os modos puramente coercitivos, como a polícia e as leis, de manter a dominação. A mudança no discurso, portanto, longe de ser um primeiro passo para a mudança, é um passo necessário – do ponto de vista da classe dominante – para que nada se mude.
Outro ponto importante que permite que o texto de Candido estabeleça uma grande confusão em relação às ideias e seu papel social, é o fato de que a divisão da sociedade em classes é algo pra lá de secundário, praticamente inexistente em seu texto. Marx aponta que: “Parece que o correto é começar pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva; assim, em Economia, por exemplo, começar-se-ia pela população, que é a base e o sujeito do ato social de produção como um todo. No entanto, graças a uma observação mais atenta, tomamos conhecimento de que isso é falso. A população é uma abstração, se desprezarmos, por exemplo, as classes que a compõem.”
Se ignoramos que a sociedade é dividida em classes, torna-se muito mais difícil compreender a contradição entre discurso e prática. As duas classes fundamentais que compõem a sociedade capitalista são a burguesia – que é a classe que detêm todos os meios de produção e, portanto, toda a riqueza da sociedade – e a classe trabalhadora – que são todos aqueles que vendem a sua força de trabalho para a burguesia em troca de um salário apenas suficiente para sua sobrevivência e, portanto, não detém nenhuma riqueza e nem mesmo aquela que é produzida com seu próprio trabalho. Entre estas duas camadas fundamentais há um meio termo nada desprezível (ao qual, inclusive vale a pena notar, Antonio Candido pertence) que é a pequena-burguesia. Esta camada não detém nenhum meio de produção social, mas também não explora a mão de obra de outros. É uma camada bastante heterogênea. São, por exemplo, os profissionais liberais, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais, pequenos comerciantes, camelôs etc.
Candido ao ignorar a divisão da sociedade em classes, partindo de seu pressuposto idealista de não verificar por quem, como e com que finalidade são produzidas as ideias, deixa-se levar pelo seu entusiasmo e as apresenta como se fossem produzidas “espontaneamente”. Vejamos: “um traço sinistro do nosso tempo é saber que é possível a solução de tantos problemas e no entanto não se empenhar nela.” Quem não se empenha na solução dos problemas? O sujeito na construção de Candido é o “nosso tempo”. Ora, mas “um tempo” é constituído por pessoas de carne e osso (e ideias); e são pessoas que possuem classes sociais. Quem tem os meios materiais para acabar com a miséria em suas mãos e nada faz é a burguesia. Se não deixamos isto claro, fica obscurecida também a solução. Como Marx vê claramente que o problema de “nosso tempo” é justamente que a burguesia detém os meios de produção, aponta que a saída consiste justamente em que os trabalhadores os tomem em suas mãos para poderem “se empenhar na solução dos problemas.”

A auto-educação e as leis X a organização política e a luta de classes

Na segunda parte do texto Candido passa a pensar a solução para os problemas de direitos humanos. Aqui, as conseqüências políticas de seu idealismo ganham novos contornos. Afirma que: “pensar em direitos humanos tem um pressuposto: reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo. Esta me parece a essência do problema, inclusive no plano estritamente individual, pois é necessário um grande esforço de educação e auto-educação a fim de reconhecermos sinceramente este postulado.”
Ao ignorar a divisão da sociedade em classes, Candido coloca o centro da questão em que cada indivíduo pense no bem estar do próximo. Evidencia-se aí o fundo cristão e humanista do pensamento que ele apresenta, pois o fundamental seria cada um “dividir o seu pão” com o próximo para que todos tenham o que comer. Esta concepção não apenas é ilusória como gera uma grande distorção no senso comum a respeito do que é o socialismo, pensando que ele consiste em que “cada um divida suas coisas com outra pessoa”. Esta concepção foi utilizada, por exemplo, por Collor em sua campanha presidencial em 1989 contra Lula (que, diga-se de passagem, nunca passou nem perto de ser socialista), dizendo que se o “comunista” Lula fosse eleito, as pessoas teriam que dividir suas casas com os sem-teto, suas camas, suas roupas e todos seus bens pessoais.
O maior engano nesta concepção esta justamente em ignorar que, por termos uma sociedade dividida em classes, há uma pequena parcela da população que, por exemplo, tem uma casa própria; há uma imensa maioria que não tem; e há uma ínfima minoria que detém dezenas, centenas ou milhares de imóveis e que vive dos aluguéis dos que não tem para sustentar suas vidas de uma luxuosidade obscena. Portanto, a solução para acabar com os sem-teto não passa por que cada um que tem uma casa própria divida ela com uma família de sem-teto. Passa pela expropriação dos grandes imóveis desocupados que seguem vazios para atender os interesses da especulação imobiliária (pesquisas mostram que com os imóveis desocupados em São Paulo se poderia atender a todas as pessoas sem moradia com uma grande folga).
Não por coincidência, é justamente esta pequena parcela que detém tudo a que também tem acesso aos melhores meios educacionais disponíveis em nossa sociedade. Portanto, não se trata de um problema de “educação” ou “conscientização”. Aliás, Candido chega a dar uma mostra disso quando diz que: “O fato é que cada época e cada cultura fixam os critérios de incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra”. Contudo, Candido não chega às conseqüências deste pensamento que apresenta.
Quando diz que “cada época e cada cultura” dizem o que é indispensável ou não para todos, mais uma vez Candido oculta através de termos abstratos e generalizantes (época e cultura) quem são os responsáveis pela criação das ideias. Marx aponta que “as ideias dominantes de uma época são sempre as ideias de sua classe dominante”. Isto ocorre porque a classe dominante – no caso de nossa “época e cultura”, a burguesia – detém todos os meios de criação e propagação de ideias. As editoras, emissoras de televisão, faculdades e escolas, estações de rádio, provedores de Internet, gravadoras etc. são todas meios de produção de propriedade da burguesia. Se eu quiser divulgar minhas ideias, elas estarão sujeitas à aprovação das pessoas que possuem os meios para divulgá-las. E se eu quiser divulgar a ideia de que considero a cultura um bem indispensável para todos e, portanto, acho justo que expropriemos a rede globo sem indenização, acho bem pouco provável que alguém queira veicular esta ideia na televisão em horário nobre. Assim, não é a época e a cultura que definem os critérios, mas sim a classe dominante. E, como Candido aponta de passagem, a própria educação é um veículo ideológico porque ensina as crianças desde pequenas o que é “certo” e o que é “errado”. Só que quem decide o que se ensina nas escolas também não é “uma época e uma cultura”, mas sim o Estado ou os donos das escolas privadas, e todos estes também pertencem à burguesia…
Quando temos esta perspectiva marxista, só pode soar ingênua ou mal intencionada a proposta de Candido de que: “Do ponto de vista individual, é importante a consciência de cada um a respeito, sendo indispensável fazer sentir desde a infância que os pobres e desvalidos têm direito aos bens materiais (e que portanto não se trata de exercer caridade) (…) Do ponto de vista social é preciso haver leis específicas garantindo este modo de ver”.
Quanto ao ponto de vista “individual” (curioso como Candido aí coloca a educação como uma questão “individual” e não social) já discutimos; sua proposta social de “leis” é também impressionante pela sua inofensividade. O texto de Candido foi escrito em 1988, mesmo ano em que se fazia a Constituição Federal, que assegura uma série de direitos que até hoje não saíram do papel. O DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) calcula que para que uma família de quatro pessoas pudesse desfrutar de todos os direitos “assegurados” na constituição, o salário mínimo hoje teria que ser de R$ 2.750, 83. E aqui nem estamos falando de direito à literatura, mas ao básico do básico… A ideia de que por leis aprovadas por dentro do Estado burguês se poderia chegar a uma sociedade justa é bastante antiga…mas entraremos neste assunto mais profundamente nas próximas sessões do Grupo de Estudos.
O que vale sim deixar apontado e que discutimos no grupo, é que não desprezamos de forma alguma a conscientização individual em relação à desigualdade. Há, contudo, duas questões fundamentais: Candido, em seu texto, sempre aponta para a consciência dos que tem mais e sua necessidade de dividir com os outros; Marx, por outro lado, sempre aponta para a conscientização dos que são explorados para que lutem contra a exploração (“a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”). Outra questão é o que se faz com esta consciência que se adquire. Candido separa o plano individual da “conscientização” e o coletivo das “leis”. Marx vê uma dialética fundamental entre o trabalhador que se conscientiza individualmente e a transformação social, e por isto defende a necessidade de que os trabalhadores que se conscientizaram de sua exploração de organizem coletivamente sob a forma de partido, para que possam transformar sua consciência individual, que sozinha não pode fazer frente ao poder patronal, em organização social e política coletiva que, aí sim, será capaz de golpear decisivamente o Estado e tomar seus direitos em mãos.

As ideias de justiça avançam de forma linear, gradual e evolutiva?

Candido e Lula

Ontem, ao terminarmos a leitura do primeiro tópico do texto, uma companheira perguntou em que ano havia sido escrito o texto. E disse que nestes 25 anos que nos separam da escrita do texto, muita coisa havia mudado, e que não achava que a barbárie era assim tão ocultada quanto Candido apontava em 1988.
Se o autor vê um avanço gradativo, que parte do avanço da técnica, passa pelo avanço do discurso e das ideias e, por fim e eventualmente, chegaria à distribuição da riqueza, o marxismo está longe de ver um avanço linear e gradual na história até a justiça social. Pelo contrário: como define Marx, o motor da história é a luta de classes. Então, os avanços e retrocessos, sejam eles materiais ou nas ideias, estão sujeitos aos avanços e retrocessos na luta de classes. Quando Candido escreve seu texto, em 1988, a humanidade se encontrava em um período sombrio para a luta por emancipação: era a véspera da queda do muro de Berlim e do fim da União Soviética. Em que pesem todas as críticas que são imprescindíveis de fazer ao mal chamado “socialismo real”, que de socialismo possuía muito pouco, quase só o nome, não se pode negar que ainda havia avanços sociais importantíssimos nestes países que foram derrubados. E, também importantíssimo, havia a ideia de que a revolução e o socialismo são possíveis. Com a restauração capitalista, tem início um período histórico de triunfalismo da burguesia, em que se criou a ideologia (falsificação da realidade) de que a queda do URSS stalinista representava a impossibilidade histórica do socialismo. Nesta época se fortaleceu uma nova variante do reformismo (a ideia de que o socialismo pode ser atingido a partir de reformas legais lentas e graduais sem uma revolução), o chamado Eurocomunismo.
Complementarmente, no Brasil era o período da transição da ditadura à democracia burguesa, que foi feito a partir da transição pactuada com os militares, em que se mudou o regime mas nenhum de seus pilares fundamentais. Prova concreta disso é que nenhum militar ou empresário financiador do golpe foi punido, e os grandes ícones políticos da ditadura são hoje base do governo petista, como Sarney, Maluf entre outras oligarquias ligadas ao regime militar. A esquerda hegemônica brasileira, capitaneada pelo grupo de Lula, aderiu prontamente à ideia de que o melhor que os trabalhadores podem fazer são lutas salariais nos sindicatos e disputas eleitorais no parlamento. A continuação deste projeto, hoje todos podem ver…
Neste contexto, o pensamento de uma evolução lenta e gradual rumo à justiça social, tal qual prega Antonio Candido, encaixa como uma luva. No Brasil ideias assim foram a base ideológica do período lulista, em que o presidente podia declarar tranqüilamente em público que “nunca na história deste país” os banqueiros e empresários lucraram tanto sem causar nenhuma ira popular, porque também havia um “trocado” para o Bolsa Família e o crescimento do emprego precário.
Não à toa, a primeira vez que surgiu a ideia do reformismo foi na Alemanha do século XIX, quando o país passava por um período de grande crescimento econômico e, diante da imensa força social do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), o maior partido da classe trabalhadora no mundo, a burguesia fazia concessões econômicas e sociais importantes e mesmo assim conseguia manter o aumento dos seus lucros. Era uma conjuntura em que era fácil e confortável “dar os anéis para não perder os dedos”, e, tragicamente, uma parte da esquerda que se considerava socialista, capitaneada teoricamente por Eduard Bernstein, chegou à equivocada conclusão de que se poderia implementar o socialismo por vias pacíficas através das eleições.
Contudo, a história é dinâmica e as ideias são condicionadas pelas condições materiais. Hoje estamos no sexto ano de uma crise capitalista de proporções inéditas, e as conseqüências políticas disto se fazem sentir por todo mundo, com a eclosão de enormes protestos de massa e processos revolucionários na Primavera Árabe, levantes de juventude em países tão distintos quanto EUA, Canadá, México, Chile e Brasil. O acirramento da luta de classes, que estava “fria”, coloca em cheque ideias de evolução harmônica e gradual. A sociedade polariza-se, e crescem as ideias que propõe soluções mais radicais, tanto à direita quanto à esquerda. Na Grécia se fortalece o partido fascista Aurora Dourada. O discurso da barbárie ganha corpo novamente, contrariando as ideias de evolução gradual de Candido como o partido nazista contrariou as de Bernstein nos anos de 1920.
No Brasil, a situação ainda é mais amena e o discurso se combina: por um lado as massivas mobilizações de junho obrigam Dilma a ir à televisão declarar que os protestos são legítimos, enquanto tenta deslegitimar seus setores mais radicalizados; é obrigada a apresentar um plano de reformas. Candido, talvez, interprete isto como um avanço. Mas o marxismo vê claramente que é uma enganação: o discurso é para tentar acalmar as massas sem mudar nada, e a legitimação dos protestos é para tentar separar seus setores mais radicalizados das massas. Por outro lado, a barbárie se intensifica: as polícias chegam a assassinas manifestantes como Douglas Henrique, e a Câmara dos Deputados legitima estas ações votando uma homenagem aos policiais feridos em Junho. Contudo, o questionamento da barbárie também avança, quando o Brasil inteiro passa a perguntar “Cadê o Amarildo?”, quando antes crimes como estes ocorriam despercebidos às centenas por dia (contrariando a ideia de Candido de que o mal não era mais “naturalizado” apenas porque era exposto na televisão).
A questão que temos que colocar é: de que lado nos posicionaremos nesta nova situação? Consideramos que o estudo de textos como o de Candido devem servir também para refletirmos sobre estas questões e fundamentarmos melhor nossas ações. Convidamos todos a seguir a discussão sobre “O Direito à Literatura” com o Grupo de Estudos de Cultura e Marxismo.

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