Crítica a “O direito à Literatura” – Parte 2

por culturamarxista

Este texto dá continuidade ao publicado anteriormente “Crítica a ‘O direito à Literatura’ – Parte 1′

Por Pardal

No primeiro texto sobre “O direito à Literatura” nos detivemos nos pontos 1 e 2 do texto de Antonio Candido, procurando discutir como eles expressavam sua visão de direitos humanos, do avanço histórico deles e a relação entre as idéias, o discurso e a produção material da vida. Nesta segunda parte pretendemos abordar os pontos 3 e 4, onde discutiremos principalmente a visão de literatura tal como Candido a apresenta neste texto.

AC - lit e soci

A literatura como manifestação universal X literatura como fazer social e histórico

Candido dá sua definição de literatura como “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações”. E, assim, Candido afirma que “vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos”. A tentativa do autor aqui é nitidamente proferir o caráter universal da literatura para, em seguida, valer-se desta universalidade para proferir, portanto, o caráter de sua necessidade como um direito humano. Ainda que o intuito final seja louvável, Candido o faz com uma argumentação bastante contestável, como pretendemos demonstrar.

Para vermos qual é o problema de tal modo de definir a literatura, nos remeteremos a dois autores marxistas e a forma como estes definem a literatura. O primeiro, Raymond Williams, acompanha a trajetória do termo literatura em seu desenvolvimento histórico, desde que significava a alfabetização, passando por textos de caráter filosófico, e chegando aos dias atuais. O primeiro mérito de Williams é demonstrar como um conceito sofre alterações de acordo com as modificações da sociedade, ou seja, nos remete à ideia marxista que discutimos anteriormente, de que a produção intelectual de uma época está associada à produção material da vida. A partir deste breve panorama histórico, Williams afirma que “É relativamente difícil ver a ‘literatura’ como um conceito. No seu uso habitual parece não ser mais do que descrição específica, e aquilo descrito é então, via de regra, tão valorizado que há uma imediata e imperceptível transferência dos valores específicos de obras particulares e tipos de obras para aquilo que opera como um conceito mas ainda assim é firmemente encarado como algo prático e verdadeiro. (…) Portanto é comum encontrarmos a ‘literatura’ definida como ‘experiência humana imediata, central e plena’, geralmente com uma referência associada a ‘detalhes minuciosos’. Em contraste, a ‘sociedade’ é frequentemente vista como geral e abstrata: as sínteses e médias, ao invés da substância direta da vida humana (…) a abstração do ‘concreto’ é um círculo perfeito e virtualmente indestrutível. (…) Esse é um sistema de abstração poderoso e frequentemente esquecido, no qual o conceito de ‘literatura’ se torna ativamente ideológico.”

Aqui, Williams demonstra que se utiliza o conceito de “literatura” para conferir mérito a um determinado tipo de escrita, e que o seu uso opera ideologicamente justamente quando transforma a experiência literária em algo mais real do que a própria realidade. Neste momento percebemos novamente aquilo que Marx falava sobre a filosofia alemã e que podemos estender ao idealismo em geral, de dar prioridade às ideias em relação ao mundo concreto. Williams vê aí o conceito de literatura atuando como “ativamente ideológico” pois a partir desta inversão pode-se criar todo tipo de distorção sobre o entendimento efetivo da vida. Ainda que Candido não chegue de forma alguma ao ponto de defender a prioridade da literatura sobre a vida, podemos perceber nitidamente traços deste elemento apontado por Williams quando o autor afirma que a literatura “não é uma experiência inofensiva, mas uma aventura que pode causar problemas psíquicos e morais, como acontece com a própria vida, da qual ela é imagem e transfiguração. Isto significa que ela tem papel formador da personalidade, mas não segundo as convenções; seria antes segundo a força indiscriminada e poderosa da própria realidade”. Candido parece querer convencer seu leitor de que a literatura é tão poderosa que não podemos saber o que esperar dela, que foge ao controle do leitor, do autor e tem “a força da própria realidade”.

Outro autor que nos permite entender de forma ainda mais completa a ambiguidade do conceito de “literatura” é Terry Eagleton, que em seu texto “O que é literatura?” – que estudamos algumas vezes em nosso grupo ao longo destes anos – procura esmiuçar ainda mais pormenorizadamente como este conceito opera. A partir de três definições consagradas do que é a literatura, Eagleton demonstra como em diferentes contextos todas estas definições podem ser jogadas por terra e, assim como Williams, demonstra que há critérios para a classificação do “literário” que estão bastante por fora de qualquer tipo de consideração estética. Assim, afirma Eagleton que “(…) podemos pensar na literatura menos como uma qualidade inerente, ou como um conjunto de qualidades evidenciadas por certos tipos de escritos que vão desde Beowulf até Virginia Woolf, do que como as várias maneiras pelas quais as pessoas se relacionam com a escrita. (…) Não existe uma ‘essência’ da literatura. ‘Literatura’ talvez signifique (…) qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. (…) Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera.”

Desde este ponto de vista, que deixa de considerar a “literatura” como algo universal e olha para sua definição na história concreta da humanidade, na sua definição a partir de uma prática social, podemos ver como a definição de Candido de literatura é idealista e carece de fundamentos reais que a sustentem. Como Eagleton aponta, todos os termos utilizados por Candido para definir o “literário” (criação de toque ficcional, poético ou dramático) não incluem aquilo que foi considerado literatura em distintas épocas e sociedades, como os ensaístas do iluminismo.

Contudo, não é esta a principal armadilha no percurso de Candido para a definição da literatura como necessidade universal. Pois suponhamos que Candido apenas toma a palavra “literatura” para lhe conferir uma nova definição e que estejamos de acordo com ela. O próprio autor afirma – concordemos ou não – que “a criação ficcional ou poética (…) está presente em casa um de nós” e que “ninguém pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia”. Se é este o caso, então está assegurado o direito à “literatura” nos termos em que o próprio Candido a definiu, pois todos a realizam inclusive independentemente de sua vontade! A armadilha que aparece no texto de Candido é que após definir a literatura desta forma ampla, ele “troca” a sua definição pela literatura em outra chave, que é a dos livros e da cultura escrita, tal como somos ensinados a concebê-la na escola. Esta sim precisa da intervenção social para ser garantida, e Candido passa a defender seu acesso como se estivesse falando da “fabulação universal” que ele afirmou ser presente na vida de todos os seres humanos de todas as épocas. Assim, Candido foge à sua própria definição, misturando-a com outra mais difundida, demonstrando como as considerações de Williams e Eagleton se fazem carne na própria exposição de Candido, que utiliza de maneira ambígua o conceito de literário para defender o acesso a um tipo de escrita que é valorizada por ele próprio e a sociedade na qual está inserido.

Assim, compreendemos  este conceito a partir de uma leitura marxista, que vê a literatura como uma prática social e cultura, historicamente definida a partir de valores impostos pela classe dominante, e isto permite ver como a definição de Candido é ambígua e idealista, pois vê na literatura algo “universal” e, de modo sutil, procura se valer daquilo que é literatura em sua própria sociedade para impor como uma necessidade universal, tendo assim uma visão que parte de sua própria cultura para definí-la como valor universal, o que é uma quimera, pois todo valor é definido histórica e culturalmente.

 

O valor “humanizante” da literatura e as classes sociais

 

Negue aos filhos da classe trabalhadora qualquer compartilhamento

 do imaterial e eles crescerão para serem os homens que exigem

com a ameaça do comunismo o compartilhamento do material

– George Sampson. English for the English, 1921

 

O valor por excelência que Candido procura ressaltar na literatura, e que deveria validá-la como algo a ser acessível a todos, é o de “humanizar” seus leitores. Já é digno de nota que Candido cite esta característica na página 175, reiterando sua importância diversas vezes, mas vá definir o que entende por esta “humanização” apenas cinco páginas depois, na 180. Isto porque, tal qual seu conceito de literário, o conceito de “humanização” de Candido é ambíguo e se altera sutilmente para embasar sua defesa da literatura como direito humano universal.

Não podemos deixar de chamar a atenção para os termos que Candido utiliza para falar sobre os valores contraditórios que se manifestam no seio da literatura. Mais uma vez a omissão notável das classes sociais, em que a ideia de que a burguesia procura reproduzir valores e transmiti-los a partir de todas as ferramentas ideológicas – a literatura incluída aí – é substituída por valores que “estão no ar”. Por isso ele afirma que a literatura fala de “valores que a sociedade preconiza”, a literatura “que os poderes sugerem”, “a visão convencional”; ora, que poderes? De onde eles emanam? De onde surgem estas convenções? Se não se clarifica que trata-se da burguesia que impõe seus valores a partir de deter todos os meios de criação das ideias, não se pode compreender a necessidade deste mecanismo e como ele opera, além de que se pasteuriza toda a sociedade, eliminando as diferenças que existem em seu interior. Quando fala dos que se contrapõe aos valores e ideologias da classe dominante, Candido também utiliza termos vagos como “dos movimentos de negação do estado de coisas”. Candido, um grande erudito que leu muito Marx, não omite estes conceitos por acaso, mas por conta de sua visão política que abordaremos mais detidamente posteriormente. Apenas notemos que Candido deixa estas contradições em termos vagos e nunca toma partido de nenhuma delas, apenas dizendo que é fundamental que se tenha acesso a ambas.

Candido define assim a humanização promovida pela literatura: “Entendo aqui por humanizaçao (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semeÌhante.” A abstração e a generalidade destes conceitos fala por si só. Mas, sem nos determos especificamente na ingenuidade de cada um, vejamos um pouco com Eagleton de onde vem esta ideia da literatura “humanizadora”.

No primeiro capítulo de seu livro “Teoria Literária: Uma introdução”, Eagleton traça um panorama histórico da tomada de importância da literatura na Inglaterra e como ela passa a integrar os currículos escolares e ser defendido seu ensino às crianças. Eagleton chama a atenção para o fato de que, no antigo regime, em que a classe dominante era a nobreza, a Igreja cumpria o papel ideológico predominante na pacificação dos conflitos sociais. A burguesia, contudo, teve que empreender um combate a esta forma de ideologia na sua luta pelo poder, criticando ideias como o “direito divino de governar” dos reis. Assim, Eagleton mostra como para a nova classe dominante a literatura poderia cumprir um papel semelhante ao que a Igreja cumpria anteriormente. Ele afirma que: “A literatura era de muitas formas um candidato adequado para este empreendimento ideológico. Como uma busca liberal e ‘humanizadora’, ela podia fornecer um poderoso antídoto para a intolerância política e extremismo ideológico. Já que a literatura, como sabemos, lida com valores humanos universais ao invés de trivialidades históricas tais como as guerras civis, a opressão das mulheres ou a falta de terras do campesinato inglês, ela poderia servir para dar um contexto cósmico às demandas mesquinhas do povo trabalhador por condições decentes de vida ou maior controle sobre suas próprias vidas, e com alguma sorte poderia fazê-los se esquecer destas questões em sua alta contemplação das verdades e belezas eternas”. O Inglês, como afirma omanual Vitoriano para professores de inglês, ajuda a ‘promover a simpatia e o sentimento de camaradagem entre todas as classes’. (…) A Literatura treinaria as massas no hábito do pensamento e sentimento pluralista, persuadindo-as a reconhecer que existe um outro ponto de vista além do delas – nomeadamente, o de seus senhores.”

Enfim, não podemos evidentemente atribuir a Candido a intenção de querer distrair as massas de sua luta por melhor condições de vida, mas, independentemente das intenções do crítico, este ponto de vista remete diretamente a esta concepção e esta imbuído dela, como por exemplo quando ele diz que a visão “convencional” e a “contestadora” devem ser aprendidas sem distinção. Torna-se claro que a construção histórica de ideia de que a literatura humaniza está associada à noção de que ela apazigua os conflitos sociais ao colocar em primeiro plano questões supostamente “maiores” do que o salário, a moradia, a terra, o saneamento básico e todas as questões que afetam a vida da classe trabalhadora. É uma forma de iludir, de distrair, de fuga. Mais ou menos como o papel que cumpre a novela hoje em dia…

Eagleton também fala sobre a questão da suposta humanização da literatura ao tratar da figura de F. R. Leavis, um homem que defendeu o ensino de inglês e sua popularização nas primeiras décadas do século XX e apresentava uma ideia bastante semelhante à de Candido sobre seu poder humanizador. Sua influência foi tamanha que as próprias concepções de Candido a este respeito certamente são tributárias da influência de Leavis e seus seguidores. Tal qual Candido em nosso país, Leavis representa um movimento bastante progressivo na crítica literária de seu país, inclusive defendendo o estudo das questões sociais implicadas na literatura e uma forma de “comunismo econômico” cuja implementação prática, como aponta Eagleton, nunca foi uma preocupação efetiva de Leavis (coincidências?). Assim, o texto demonstra como a visão de Scrutiny – revista editada por Leavis e seus companheiros defendendo esta concepção da literatura – no fim das contas via na educação a única forma efetiva de intervenção social progressista, visão que podemos perceber também em Candido. Contudo, concordamos com a visão marxista que nos oferece Eagleton acerca desta ideia: “Há bases reais para duvidar de que a educação tenha o poder transformador que Arnold e Leavis lhe atribuíam. Ela é, afinal, parte da sociedade muito mais do que uma solução para esta; e quem, como Marx indagou certa vez, educará os educadores? A Scrutiny se apegava a esta ‘solução’ idealista, no entanto, porque era avessa à ideia de procurar uma solução política”.

Entre outros argumentos que Eagleton apresenta contra esta visão ingênua de Leavis – e Candido – há mais um que queremos apresentar: “Muitas pessoas eram permeadas pela alta cultura, mas uma década após o nascimento da Scrutiny se demonstraria que isso não as impediu de se envolver em atividades como ordenar o assassinato de judeus na Europa central. (…) Quando as tropas aliadas entraram nos campos de concentração alguns anos após a fundação de Scrutiny e prenderam comandantes que gastavam suas horas livres com um volume de Goethe, pareceu que alguém devia algumas explicações”.

 

Mudando a concepção de literatura: Candido e o formalismo

 

Seguindo seu texto, ainda em defesa do poder humanizador da literatura, Candido mais uma vez de forma não anunciada muda sua concepção do literário ao afirmar que, entre os três aspectos humanizadores da literatura está sua organização da linguagem: “embora costumemos pensar menos no primeiro, que corresponde à maneira pela qual a mensagem é construída; mas esta maneira é o aspecto, senão mais importante, com certeza crucial,  porque ele é o que decide se uma comunicação é literária ou não”. Ora, então para onde foi o literário em toda criação de toque ficcional? Candido a abandonou e não contou a seus leitores, comprovando mais uma vez a veracidade dos apontamentos de Eagleton e Williams.

Esta definição a que Candido se apega agora é também abordada por Eagleton e é uma bastante utilizada pelos professores de literatura e pela academia em geral, que consiste em pensar a literatura como uma forma de organização da língua, muito mais do que o tem do qual ela trata. Tal concepção tem sua raiz nos formalistas russos do início do século XX e, por mais que Candido afirme a relação dialética entre forma e conteúdo, neste trecho do texto fica claro que ele cria um distanciamento entre ambos. A afirmação que evidencia isto melhor é quando Candido afirma “se fosse possível abstrair o sentido e pensar nas palavras como tijolos de uma construção, eu diria que estes tijolos representam um modo de organizar a matéria, e que enquanto organização eles exercem um papel ordenador sobre nossa mente”. Qual o sentido de pensar em “palavras sem sentido”? Não existem “palavras sem sentido”, e esta abstração carece de qualquer sentido prático na compreensão da linguagem e da literatura, servindo para o único propósito de extirpar da análise da literatura o seu conteúdo social que se condensa numa forma. Assim pensa o marxismo, conforme apontado pelo texto que sugerimos como leitura “O método da economia política”: partir do concreto, formular a teoria a partir disto e voltar a aplicá-la sobre o concreto. Deve-se entender a totalidade das manifestações e como a parte se relaciona com o todo e vice-versa. Assim, não podemos pensar a forma de organização de um texto sem pensar que ela é determinada pelo seu conteúdo e vice-versa. É bastante distinto do pensamento de Candido ao afirmar, criticando visões dogmáticas como a da Igreja ou do stalinismo, que “são posições falhas e prejudiciais à verdadeira (sic!) produção literária, porque têm como pressuposto que ela se justifica por meio de finalidades alheias ao plano estético, que é o decisivo”. Ou seja, Candido acaba caindo na famosa visão da “arte pela arte” e, contrariando até mesmo o melhor de sua própria produção crítica, separa de forma dicotômica o conteúdo e a forma da literatura.

Procurando justificar esta opinião da forma como prevalente, Candido dá o exemplo do poema de Tomás Antonio Gonzaga e, analisando a organização da linguagem afirma: “A extrema simplicidades desses versos remete a atos ou devaneios dos namorados de todos os tempos: ficar com a cabeça no colo da namorada, apanhar flores para fazer uma grinalda, escrever as respectivas iniciais na casca das árvores.” Novamente, procura transmitir valores específicos como universais (já hoje em dia não vemos sequer namorados fazendo grinaldas, que dirá os namorados “de todos os tempos”), e o perigoso desta lógica é que omite que a organização da linguagem é também situada histórica e socialmente para transmitir determinados valores culturais. Se não nos atentamos a isto, não podemos perceber o papel ideológico da literatura nem a forma como sua organização textual expressa esta função. Com isto, reproduzimos a ideologia presente na literatura ao invés de compreendê-la.

O problema do ecletismo teórico

Nestes trechos do texto que abordamos, podemos perceber algo que o próprio Candido aponta em sua produção crítica: seu ecletismo teórico. Em entrevista, ele afirma este ecletismo e diz que é algo que os marxista condenam nele. De fato, o problema deste ecletismo, pudemos vê-lo acima. Todas as concepções críticas e noções do que é literatura, como compreendê-la e como estudá-la são também frutos de um determinado contexto social e, portanto, carregam intrinsecamente uma concepção política do mundo. É isso que procuramos demonstrar ao recorrer a Eagleton para elucidar a origem histórica do conceito de literatura como uma prática “humanizadora” e demonstramos como isto é uma ideia funcional à dominação de classe da burguesia. Evidentemente não somos contra a que se recorra a distintos campos do saber humano para analisar a literatura ou o que quer que seja; mas não é disso que se trata quando falamos em ecletismo teórico. O ecletismo é justamente se apropriar “um pouquinho” de cada concepção sem se atentar devidamente para sua origem e suas conseqüências, seja no plano estético, seja no plano político. Nestes trechos a habilidade de Candido se somou a seu ecletismo para fornecer uma visão do literário que é ambígua, ideológica, e não ajuda a compreender a natureza do fenômeno a que chamamos de literário. Por isto, o marxismo tem a intenção de ser radical: ir à raiz das concepções teóricas e das práticas sociais para desvendar suas causas e conseqüências sociais mais profundas. No próximo encontro do Grupo de Estudos, pretendemos encerrar o estudo deste texto de Antonio Candido relacionando suas concepções estéticas, filosóficas e sociais que abordamos nos primeiros encontros a suas conseqüências na prática social deste crítico e na sua atuação política.

 

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